“Na UMinho vivi os melhores anos que alguma vez tive”

05-07-2017 | Nuno Passos

A atuar pelos This Penguin Can Fly (mascote incluída) a 25 de abril de 2017, na Sala Touro - Matiné Malfeita, em Fafe (foto de Clara Pereira )

Concerto dos This Penguin Can Fly a 31 de maio de 2017, no Sofar Sounds Porto. É uma das bandas emergentes de Guimarães, a par de nomes como Hot Air Balloon, Toulouse, Paraguaii, Let the Jam Roll, Gobi Bear, Fragmentos, Hacksaw ou Square

A tocar bateria com Captain Boy a 18 de julho de 2015, no Festival Super Bock Super Rock, em Lisboa

Espetáculo de Bruno Pernadas a 17 de junho de 2017, nos Banhos Velhos, promovido por José Manuel Gomes

O Suave Fest, no centro de Guimarães, coorganizado por José Manuel Gomes (foto de Luís Ribeiro)

O novo polidesportivo da Taipas Termal será fulcral para José Manuel Gomes trabalhar a programação desta instituição

Entrevista na Rádio Universitária do Minho a 29 de março de 2017, com o apresentador João Pereira

Com a sua "madrinha" de curso, Vera Oliveira, durante o cortejo do Enterro da Gata'2007, no centro de Braga

Num momento divertido com os colegas da licenciatura Carlos Kiroga, André Esteves, David Tuna e Armando Miguel, em 2007

Num instante da Latada dos estudantes da UMinho, em 2008

José Manuel Gomes, numa ilustração de Beatriz Cavaleiro

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José Manuel Gomes

O programador cultural e gestor de conteúdos da Taipas Termal é licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos, mestre em Mediação Cultural e Literária pela UMinho e tem a pós-graduação em Marketing Digital pela TecMinho. Com 30 anos de vida intensa, já fez "de tudo": comercial, redator, assessor, promotor, gestor internacional, empresário, músico…


Que recordações tem da infância?
Tive uma boa infância, razoavelmente pacata, nas Caldas das Taipas [Guimarães]. Até aos 14, 15 anos brincava na rua com muitos amigos, andava de bicicleta, passava horas no rio e na piscina. Tive uma proteção espetacular dos meus irmãos [Miguel e Renato], que são mais velhos. Eles ensinaram-me muito e influenciaram-me na formação cultural – aos 6 anos ouvia com eles cassetes dos Pearl Jam e Nirvana. [sorriso] Lembro-me que, já na altura, eu queria tocar bateria, mas os meus pais achavam uma perda de tempo.
 
Como surgiu o seu gosto pelos Estudos Portugueses e Lusófonos na UMinho?
Foi um plano B! Entrei em Comunicação Social na Universidade do Algarveem 2005. No ano seguinte tentei transferir-me para o mesmo curso na UMinho, mas o novo Processo de Bolonha retirava-me as equivalências das disciplinas já concluídas. Recandidatei-me ao ensino superior e achei que Estudos Portugueses e Lusófonos era a licenciatura mais parecida, além de adorar ler e escrever. Pensei até fazer o 1º ano e pedir mudança [para Ciências da Comunicação], mas acabei por gostar das disciplinas, dos colegas e concluí no tempo normal.
 
Foi “um mal que veio por bem”?
Na altura fiquei um pouco triste, mas, olhando para trás, claramente que sim, não tenho dúvida que não teria chegado onde estou. No curso tive Estudos Clássicos, Estudos Culturais, Grego, Latim… que me abriu ainda mais o interesse pelas várias artes, como teatro, pintura, literatura.
 
Quis dar aulas de Português?
Não, na verdade nem acho que teria jeito! Decidi prosseguir estudos. Nesse ano de 2009 abriu o mestrado em Mediação Cultural e Literária, também no ILCH [Instituto de Letras e Ciências Humanas], e nem hesitei! Era mesmo o que queria, foi uma sorte. Durante o mestrado fui trabalhador-estudante, com um part-time como comercial de produtos editoriais (discos, filmes, videojogos) na FNAC de Guimarães. Defendi a dissertação no tempo previsto, em janeiro de 2012.
 
Qual foi o tema?
Também foi uma sorte. Nas Taipas há os chamados Banhos Velhos, umas termas que caíram em desuso nos anos 1960. A direção da cooperativa Taipas Termal decidiu em 2010 reabilitar esse espaço, convertendo-o numa espécie de museu (pode ver-se, por exemplo, as antigas banheiras para tratamentos) e aliando a isso um cartaz cultural durante a primavera e o verão. Fui bater-lhes à porta, propondo um estudo científico para ver se aquele espaço serviria como “casa de artes”, mesmo não tendo sido construído para esse fim. Fiz o estágio curricular em 2011, como assistente de produção nos eventos e até programei seis deles. Já em 2013, após sair da FNAC, fiz lá o meu estágio profissional de nove meses, sendo responsável pela programação cultural e pela gestão de conteúdos de comunicação e marketing da cooperativa.
 
É o que faz agora.
Sim, entre mais coisas. Mas em 2014 não foi possível ficar. Acabei por fazer algo bem diferente. A Ballet Rosa, empresa vimaranense que exporta roupa para escolas de ballet de todo o mundo, aceitou-me como gestor internacional, para os mercados do Canadá, Reino Unido e Espanha. Viajar é bom, mas não em trabalho e com frequência. Era algo stressante, com timings apertados e sempre entre cidades. Ao mesmo tempo, a minha banda [This Penguin Can Fly] tinha lançado o primeiro álbum e eu preparava ainda a edição-piloto do ciclo de música Suave Fest, com projetos emergentes, na associação Convívio, em Guimarães (e que terá em setembro a quarta edição). Decidi sair da empresa e, 15 dias depois, de novo a sorte, passei a diretor de marketing, comunicação, design e redes sociais da Guimatubos, uma empresa de materiais para construção, renováveis e climatização. Em 2016, acumulei com a programação cultural nos Banhos Velhos. Este mês de junho voltei à Taipas Termal, onde espero ficar por longos anos [sorriso].
 
A Taipas Termal tem algumas parcerias com a UMinho.
Sim, com o o Grupo 3B’s e a spin-off Natural Concepts na área cosmética, como sabonetes e um novo gel de banho natural à base das águas termais. Foi coorganizado igualmente um curso de medicina avançada em artroscopia do tornozelo, entre outras ações. Na clínica de saúde temos o Hélder Pereira, também do 3B’s, que opera futebolistas conhecidíssimos. Noutro nível, a RUM tem sido uma parceira fundamental na divulgação.



Um café que mudou a vida

Lembra-se do seu primeiro dia na UMinho?
A Universidade do Minho é “15 vezes maior” do que a do Algarve. A realidade apanhou-me de surpresa: aquele volume de pessoas, a rua Nova de Santa Cruz, o Pavilhão Desportivo cheio na receção aos novos alunos... Senti logo a força e a grandeza da instituição. Na minha área entraram 79 pessoas, salvo erro. Tenho grandes amigos que conheci aí, com os quais às vezes converso, janto e trabalho em projetos profissionais, como sessões de cinema ou a revista RUA. Lembro-me também dos rituais de integração durarem uma semana no Algarve e, na UMinho, prolongarem-se. Embora já não fosse “caloiro” no ensino superior, participei nas atividades.
 
Fez parte de núcleos académicos, culturais ou sociais?
Bem, foi graças à UMinho que tive a minha primeira banda de garagem, os Ibrida, que chegou à final do concurso UMplugged. Tudo começou numa conversa sobre influências musicais, com o Miguel Azevedo e Jorge Ferreira, que frequentavam outros cursos, juntamente com a Mónica Dias. Foi num dia por volta de 2008, às quatro da tarde, na pastelaria Montalegrense, junto ao campus de Gualtar. Depois, em 2013 formámos os This Penguin Can Fly! O Jorge saiu entretanto e entrou o Márcio Ferreira, que também estuda num mestrado da UMinho. Noutro âmbito, promovi recentemente três cursos de escrita criativa com o professor Jaime Becerra Costa, do ILCH, que atraiu muita gente da academia.
 


Que projetos tem em mãos?
A Taipas Termal é muito ativa e com inúmeras vertentes para comunicar, desde a clínica de saúde, spa, campismo, piscinas... Inauguramos há dias o polidesportivo no Parque de Lazer, que tem uma arquitetura espetacular e serve a comunidade, as associações desportivas – como o CART [clube de hóquei em patins], que nasceu ali – e é ainda um espaço multiusos, complementando por exemplo os Banhos Velhos, que são únicos, mas só acolhem eventos ao ar livre e têm uma logística complexa. Na programação do segundo trimestre teremos oferta para todos, nomeadamente uma noite de astronomia, teatro em tributo a Raúl Solnado, curtas-metragens do Shortcutz, noite de fados e concertos de Samuel Úria, You Can’t Win Charlie Brown, Ana Sofia Ribeiro e Banda das Taipas. Noutro âmbito, gostava de criar um festival de verão que esteja entre os dez melhores do país, tal como o Rock in Taipas o foi nos anos 1990.
 
A nível pessoal, programa também ciclos de música no concelho.
Sim, através da promotora e editora Elephante MUSIK, gerida pelo trio dos Paraguaii [Giliano Boucinha, Igor Gonçalves, Zé Pedro Correia] e por mim. De certa forma responde ao forte movimento musical que está a aparecer em Guimarães, com nomes como Captain Boy e Toulouse. Quanto a eventos, organizamos a Missa do Galo e a Missa do Coelho, que são festas-concerto nos dias de Natal e da Sexta-feira Santa, no CAAA [Centro para os Assuntos da Arte e Arquitetura]. Têm resultado ridiculamente bem e, de repente, o próprio município apoiou-nos para fazer o Passa à Praça no verão, no centro da cidade. Este ciclo vai estrear no próximo mês uma espécie de irmão mais novo, o L’Agosto, com três dias de música nos jardins do Museu Alberto Sampaio.
 
Como está a banda This Penguin Can Fly?
Temos o primeiro EP, de 2014, e lançámos agora em abril o primeiro longa-duração, Caged Birds Think Flying Is a Disease. A recetividade da crítica e do público foi extraordinária. Cumprimos os quatro grandes objetivos iniciais: ter um tema a passar na rádio Antena 3 (já passaram seis dos nove do álbum!), tocar num grande festival (vamos ao Paredes de Coura em agosto!), tocar no Centro Cultural de Vila Flor (será em breve!) e poder tocar lá fora, sobretudo Espanha (queremos fazer uma digressão, pois há mercado e somos inundados de pedidos!). Temos o disco presente no Spotify, iTunes, Bandcamp e até o canal Wherepostrockdwells do YouTube nos pediu o upload, o que gerou pedidos para enviarmos o disco para os EUA, Rússia, Índia…
 
Também foi redator no jornal Reflexo das Taipas e é cronista na revista RUA
Estive cerca de meio ano no jornal e colaboro com prazer na RUA, que tem vários ex-alunos da UMinho.
 
Tem tempo para tudo?
Confesso que, à semana, é raro ter uma noite livre, pois há ensaios, reuniões, contactos… Mas quem corre por gosto… [sorriso]
 
Considera que a sociedade está disponível para a cultura?
Por vezes, o sucesso mede-se pela quantidade de público presente, mas nem sempre isso é o mais importante.
 
Pensa um dia voltar a estudar ou desenvolver projetos na UMinho?
Nesta academia vivi os melhores anos que alguma vez tive e nutro uma simpatia enorme por Braga. Foi a universidade que mais me abriu as portas à cultura, seja nos cursos que tirei como nos colóquios de literatura, nos ciclos culturais e nos espetáculos. Tirei ainda a pós-graduação em Marketing Digital 2 Business pela TecMinho, nos Congregados, no centro de Braga. Tenho a certeza de que vou tirar outro mestrado ou um doutoramento na UMinho, mas é preciso pensar num bom tema e, se possível, ligado à minha área profissional.

 

Curiosidades

Um livro1984, de George Orwell.
Um filmePodem ser quatro? Psycho, de Alfred Hitchcock. Fight Club, de David Fincher. Pulp Fiction, de Quentin Tarantino. E o Drive, de Nicolas Winding Refn.
Um discoSe fosse para uma ilha deserta, levava cinco: Revolver, dos BeatlesFuneral, dos Arcade FireIn Rainbows, dos RadioheadAchtung Baby, dos U2; e Sound of Silver, dos LCD Soundsystem.
Um clubeFC Porto.
Um desportoGosto muito de ténis.
Um passatempoOuvir música como se não houvesse amanhã, tocar música, ver séries Netflix e jogar ação e aventura na Playstation 4, é terapêutico. 
Uma viagemLondres. Acho que noutra vida morei lá.
Um prato. Adoro as francesinhas da Taberna Belga.
Um vícioAos 8 anos, era o rapaz mais feliz do mundo a jogar na Sega Mega Drive! [sorriso]
Uma personalidadeJorge Nuno Pinto da Costa. Estou a falar a sério! Ele tem “tudo”, faz-me rir! [risos]
Um momento. Atuar no Super Bock Super Rock em julho de 2015, perante 12 mil pessoas e num palco maior do que o meu apartamento. O Captain Boy convidou-me para a bateria. Foi inesquecível e surreal partilhar o backstage com os BlurFlorence and the MachineBenjamin Clementine… O meu segundo momento foi o convite para atuar [pelos This Penguin Can Fly] no mítico festival Paredes de Coura. O seu mentor, João Carvalho, veio ver-nos ao vivo no Sé La Vie, em Braga, e adorou[pausa] Lá está, só de pensar que tudo começou naqueles 60 cêntimos do café que fomos tomar junto à UMinho…!
Uma frase. Não tenho.
Um sonhoTer um voucher para comer na Casa dos Frangos da Póvoa de Varzim. [sorrisos] E ser alguém que marque a vila onde vivo e a região onde me insiro, ou seja, Guimarães, pela atividade cultural que possa eventualmente continuar a desenvolver. 
A UMinhoA segunda casa. Uma experiência inesquecível. Estou mesmo grato pelos anos que aqui passei e por quem me ajudou a formar.