Os discursos presidenciais estão menos paternalistas

05-07-2017 | Pedro Costa

Cavaco Silva passou em março de 2016 o cargo a Marcelo Rebelo de Sousa, cuja postura é bem diferente - só nos primeiros 100 dias esteve em 250 iniciativas e o seu perfil "pacificador" lembra o do primeiro Presidente da República, Manuel de Arriaga

Aldina Marques (no seu gabinete) é professora auxiliar do Departamento de Estudos Portugueses e Lusófonos do Instituto de Letras e Ciências Humanas (DEPL-ILCH) e investigadora do Centro de Estudos Humanísticos da UMinho (CEHUM)

O Palácio de Belém, de estilo barroco e neoclássico, é a residência oficial do Presidente da República (foto: Carlos A. Magalhães)

O primeiro Presidente da República de Portugal, Manuel de Arriaga (segundo à esquerda), recebido pela direção da Associação Olisiponense, em março de 1914

Capas históricas dos jornais "A Capital" e "A Vanguarda", respetivamente de outubro de 1910 e agosto de 1911. Teófilo Braga sucedeu a Manuel de Arriaga em 1915 e já o tinha "antecedido" como Presidente do Governo Provisório da República

Manuel Teixeira Gomes foi Presidente da República em 1923-25, saindo numa fase de grande perturbação político-social, embora oficialmente tenha abdicado para se dedicar em exclusivo à sua obra literária

Os Presidentes da República democraticamente eleitos após o 25 de Abril, salvo o atual

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Aldina Marques, do ILCH, lidera um projeto sobre os discursos dos chefes de Estado desde 1910, incluindo as tomadas de posse e momentos como o 25 de Abril, 10 de Junho, 5 de Outubro e Ano Novo.





Aldina Marques, professora do Instituto de Letras e Ciências Humanas da UMinho, tem trabalhos com vários tipos de discursos desde o seu doutoramento, mas o discurso político é o mais central na sua investigação, nomeadamente o discurso parlamentar. “O gosto pelo discurso político em particular surgiu um dia por me espantar como os discursos dos comícios provocavam tantas e tão fortes reações, apenas pelas palavras ditas pelos políticos”, revela a professora do Departamento de Estudos Portugueses e Lusófonos da UMinho.
 
O interesse pelos discursos, por aquilo que é feito com as palavras e pelas palavras fez com que direcionasse e construísse uma linha de investigação que tem incidido no discurso político em Portugal. "O discurso não é transparente, não passamos simplesmente a informação a alguém, pois há práticas sociais em que nos construímos e construímos os outros”, explica. E é esta dimensão enunciativa dos discursos que tem interessado à investigadora, ainda que com incursões por outras áreas, como o discurso científico, ou o discurso jornalístico.
 
Aldina Marques tem analisado os debates políticos no Parlamento português e concluiu que “endureceram”: “Apesar de ser um género que prevê a agressividade, como no Regimento da Assembleia da República, alguns deputados ultrapassam os 'limites' dessa agressividade, ao recorrerem na construção da sua argumentação a insultos ad hominem". A docente considera que a prática mais dura do debate não foi alheia à tensão criada pelo contexto de crise recente, embora não haja "dados mais atuais para avaliar a nova conjuntura política”.
 

A evolução dos discursos em 100 anos de República

Aquando da comemoração do centenário da República surgiu a ideia de analisar os discursos dos Presidentes da República de 1910 a 2010 em diversos atos públicos. No domínio das ciências da linguagem “não havia trabalho feito" neste campo, pelo que um grupo de linguistas elaborou o projeto "O Discurso do Presidente. Cem anos de discursos presidenciais em Portugal". Foram selecionados os discursos de tomada de posse, bem como os de comemoração nacional que abrangem diferentes períodos da República, como os discursos de 25 de Abril, do período da Terceira República, do 10 de Junho, do período do Estado Novo ou ainda do 5 de Outubro, “cuja recolha ainda se conseguiu realizar "por serem de difícil acesso”.

“Outros discursos comemorativos a analisar são as Mensagens de Ano Novo, tanto no Estado Novo como na atualidade. É um género discursivo com suporte mediático, nomeadamente a televisão, mas também a rádio, um meio que permitiu o surgimento destas intervenções”, diz a investigadora do Centro de Estudos Humanísticos da UMinho. Recolher os conteúdos para disponibilizar à comunidade é outro dos objetivos do projeto de investigação proposto. Mesmo no atual período da Terceira República, o grupo conseguiu recolher os discursos das comemorações do 25 de Abril, mas nas mensagens de Ano Novo, por exemplo, só foram encontrados online os discursos dos dois Presidentes antecessores ao atual, ou seja, Cavaco Silva e Jorge Sampaio.
 
De momento, estão a ser analisados de forma sistemática os discursos das 28 tomadas de posse dos Presidentes da República em Portugal. Trata-se do projeto de doutoramento da investigadora Micaela Aguiar, sob a orientação de Aldina Marques (VÍDEO). A análise incide em duas vertentes. A primeira é a caraterização do género discursivo Tomada de posse presidencial, desde “o seu aparecimento, com o surgimento da República, até uma certa estabilização, sempre dinâmica e precária, com variações dependendo dos tempos e dos protagonistas”. A outra vertente é a construção das imagens dos Presidentes e, mesmo sem muita informação sobre a I República, os resultados mostram nos períodos do Estado Novo e da democracia "um conjunto de caraterísticas e diferenças linguístico-discursivas menor do que se imaginava”.

Porém, para Aldina Marques isso não impede a construção de “relações discursivas que mostram imagens diferentes dos Presidentes”. Na relação da figura presidencial com a figura do povo português, por exemplo, “encontram-se matizes importantes, como a construção de uma imagem presidencial paternalista no Estado Novo, uma imagem que sabemos que era muito cara a Salazar”, continua a professora da UMinho. Na Terceira República há um apelo ao povo, enquanto “apelo à participação ativa, desaparecendo a imagem de passividade que ocorria nos discursos anteriores”.
 
A investigação orienta para o estudo dos mecanismos linguísticos que permitem construir estas imagens presidenciais, ao "analisar os funcionamentos discursivos, ou seja, a língua em funcionamento”. Contudo, para a cientista do CEHUM, a análise não é meramente linguística, pois “a língua é um fenómeno social, uma prática social de natureza linguística”. Assim, são estabelecidas pontes com outras áreas das ciências sociais. Para a responsável, “estas dimensões interdisciplinares são fundamentais para podermos compreender a construção do discurso”, as suas caraterísticas, os contextos sociais e situacionais. Para Aldina Marques, o projeto é “muito ambicioso, pois exige financiamento e tempo, por ser moroso”. Além disso, "este trabalho não se esgota, pois é preciso mais gente em Portugal na área - quantos mais se dedicarem, e em redes multidisciplinares, maior é a dinâmica criada”.