Casal de ex-alunos faz sucesso em Silicon Valley

30-04-2016 | Nuno Passos

Vítor Rodrigues a terminar entusiasticamente a 120ª Maratona de Boston, a 18 de abril (foto: Maddie Meyer. Getty Images)

1 / 5

Vítor Rodrigues é formado em Sistemas de Informática e engenheiro da Google. Paula Costa é formada em Biologia e Genética Molecular e trabalha na multinacional biotecnológica Agilent. Duo inspirador.




São de Barcelos (a Paula é de Rio Covo Santa Eugénia, o Vítor de Carapeços). Já se conheciam antes de entrar na UMinho?
Vítor: Já nos conhecíamos desde o 10º ano do secundário.
 
Como se decidiram por um curso nesta academia, no caso Biologia (Paula) e Informática (Vítor)?
Vítor: A opção por Braga foi natural, devido à curta distância, e Informática porque achava fascinante experimentar várias configurações de hardware, que eventualmente também levou ao meu interesse por aprender a programar.
Paula: Eu queria entrar num curso relacionado com Biologia ou Química. A primeira opção foi Biologia Aplicada na UMinho, também devido à proximidade geográfica. A segunda opção foi Química na Universidade do Porto.
 
Lembram-se do primeiro dia no campus? Como foi a integração?
Vítor: Fui dos primeiros a chegar, por isso fiquei com o 5 como número de caloiro. Foi um dia longo. Se a memória não me falha, fiquei rouco nesse dia e nos seguintes.
Paula: Lembro-me desse dia em que fui à UMinho confirmar que entrei em Biologia e de registar-me como aluna. Descobri ainda que uma amiga da escola primária (que já não via há oito anos) também entrou em Biologia Aplicada. E tenho uma vaga memória de ter conhecido outros alunos, inclusive os do 3º ano.
 
Que estórias e curiosidades guardam da vida académica?
Vítor: Como vivia em Barcelos e usava transporte de terceiros, apenas ficava por Braga depois dos estudos para atividades sociais uma ou duas vezes por mês.
Paula: Apesar de viver em Braga na vida académica, não era bon vivant. Saía ocasionalmente com amigas com quem partilhava casa e com outros amigos. Não participei em núcleos ou nas tunas. Quanto a ser aplicada, dependia da disciplina. Sempre adorei aulas práticas, nessas era bastante empenhada. Também gostei muito de Genética, Química e Biologia Molecular. Mas havia outras que não me interessavam tanto.
 
Após o curso atiraram-se ao mundo do trabalho. Como foi a evolução profissional?
Vítor: Acho que para nós foi um salto muito grande saltar diretamente da universidade para Silicon Valley, mas a adaptação foi rápida e o progresso tem sido natural. Fico com a impressão que os nossos cursos em Portugal (ou pelo menos na UMinho) nos formam muito bem a nível técnico quando comparados com as melhores universidades do mundo.
Paula: Sim, concordo.
 
E a adaptação à América do Norte, nomeadamente as diferenças no quotidiano e a saudade das origens?
Vítor: Foi uma adaptação longa, no fundo foi como começar do zero, visto mudar-me para um país completamente novo e sem ter conexões sociais. É um processo que demora tempo, mas depois começa-se a estabelecer conexões e a criar um círculo de amigos e de suporte social.
Paula: A adaptação inicial foi um pouco complicada. Em parte porque, como sempre fui ligada à família, as saudades apertavam. Outra dificuldade foi não ter ocupação profissional aquando da mudança para os EUA, o que não me deu a “distração” do trabalho nem permitiu socializar. Cinco meses depois comecei a trabalhar, mas o panorama pouco mudou, já que as pessoas com quem lidava diretamente dedicavam o fim-de-semana às suas famílias. Os colegas de trabalho do Vítor acabaram por fazer parte do nosso círculo de amizades. Hoje temos um grupo de amigos diversificado e que, de certa forma, constituem a nossa família cá. Quanto às diferenças no quotidiano, algumas foram fáceis de lidar, outras precisaram de algum tempo e outras ainda não consegui assimilar por completo, como as questões de saúde. Tenho muita dificuldade em perceber e aceitar o custo de procedimentos médicos básicos.

 
"Graças à UMinho reencontrámo-nos e depois construímos a nossa vida"

Como é o vosso dia normal?
Vítor: Acordo por volta das 7h00, tomo pequeno-almoço e saio de bicicleta para o trabalho. São 30km e chego lá por volta das 8h30. Num dia com boas temperaturas e sol, convida a desvios pelos montanhas e a rota acaba por ser entre 50-60km e chego ao trabalho pelas 10h00. Costumo dedicar as manhãs a trabalho de foco pessoal, entre programação, email, designs ou então a rever trabalhos de colegas. Almoço numa das muitas cafeterias à escolha nos escritórios da Google em Mountain View. Ao início da tarde há em geral reuniões sobre o nosso projeto em curso ou os projetos de equipas com quem colaboro e a meio da tarde retomo uma a duas horas de trabalho individual, antes de mudar para roupa de ciclista por volta das 17h00-18h00 e ir para casa, ouvindo alguns podcasts pelo caminho. É altura de cozinhar o jantar e passarmos algum tempo juntos a ver as nossas séries favoritas no Netflix.
Paula: Os meus horários são planeados à volta dos picos do trânsito e do trabalho que tenho de desenvolver. Dependendo do dia, ou vou muito cedo para a Agilent (começo a trabalhar pelas 6h30) ou mais tarde (depois das 9h30). Se há trabalho de laboratório planeado, a primeira tarefa é ligar instrumentos e pôr reagentes a descongelar. Depois dedico algum tempo a responder emails e a ler documentos. Não tenho hora exata de almoço, é algures entre as 12h00 e 15h00, dependendo de reuniões, trabalho de laboratório e atividade física. Em geral, o almoço é curto e muitas vezes aproveito para ver emails e documentos. A hora de regresso a casa também varia, das 17h00 às 19h30.
 
Quais são os vossos próximos projetos?
Vítor: Estou particularmente curioso sobre os efeitos e o progresso de machine learning e inteligência artificial num futuro próximo. Porventura, os meus próximos projetos serão nessa área.
Paula: Durante vários anos dediquei o trabalho a microarrays e, de forma mais limitada, a técnicas de sequenciação. Estou num processo de conversão a tempo inteiro para a sequenciação de nova geração, a área em que os meus desafios se vão focar. Mais a nível pessoal, tenciono adquirir conhecimento básico em programação.
 
Sentem-se no topo da carreira?
Vítor: Estou satisfeito com a minha situação atual, mas certamente não é o destino final. Há sempre novas aventuras e desafios pela frente, sinto que tenho muito caminho a percorrer, quiçá na mesma área ou explorando diferentes áreas profissionais.
Paula: Estou numa boa posição profissionalmente, mas como ser humano que sou aspiro sempre a mais. [sorriso] Definitivamente não me sinto no topo da carreira e há muito mais que quero fazer. Por outro lado, os níveis de comparação nesta área geográfica são tão altos que contribuem para a vontade de continuar a progredir.
 
O que respondem quando outras pessoas, sobretudo portugueses, vos consideram um casal inspirador com sucesso no estrangeiro?
Paula: Isso ajuda por vezes a pôr as coisas em perspetiva. Tenho a tendência a ser extremamente exigente comigo mesma e, estando tão focada no trabalho e na realidade dos EUA, às vezes não dou valor ao que já alcançamos.
 
Pensam continuar a formação? E manter ligações com esta academia?
Paula: Penso adquirir mais formação, mas não em Portugal, já que não planeio regressar num futuro próximo.
 
Seja no trabalho ou na vida pessoal, há em vós alguma marca de influência da UMinho?
Paula: Sem dúvida. A nível profissional, muitas vezes quando preparo reações enzimáticas no laboratório lembro-me da professora Teresa Lino Neto dizer nas aulas práticas de Biologia Molecular que se começa sempre pelos reagentes mais baratos e a enzima, o componente mais caro, é sempre adicionada no final. É uma boa prática que os biologistas moleculares adotam, mas faz-me lembrar na professora. Já a nível pessoal tive a oportunidade de rever e reviver amizades dos ensinos secundário e superior, que incluem ainda alguns dos meus melhores amigos. Apesar do contato limitado devido à distância e ao pouco tempo passado em Portugal, recordo-me muitas vezes dos amigos dos tempos da UMinho. Acho que a maior marca para mim e para o Vítor foi reencontrarmo-nos e eventualmente namorar e casar! [sorriso] Estou muito certa que, se não nos tivéssemos reencontrado na UMinho, a nossa vida seria muito diferente.
 
Estão certamente bem nos States. Pensam regressar mais tarde a Portugal?
Vítor: Depende do significado de mais tarde! [sorriso]
Paula: Um dia mais tarde, sem data definida.
 
Como os EUA veem Portugal?
Paula: Cada vez mais ouço Portugal a ser falado nos EUA como destino turístico, gastronómico e cultural. Conheço várias pessoas que já foram a Portugal ou estão a planear ir. Nos últimos anos também comecei a notar um aumento de artigos portugueses a serem vendidos nas lojas norte-americanas: têxtil (nomeadamente lençóis), cerâmica, vinho, azeite e conservas!
 


As escolhas de Vítor

Um livro. “Shogun”, de James Clavell.
Um filme. “The Pianist”, de Roman Polanski.
Uma música. “Radio”, de Lana del Rey, no Spotify.
Um clube. Sporting Clube de Portugal.
Um desporto. O atletismo, com muitas saudades do ciclismo.
Um passatempo. Quora e Coursera.
Uma viagem. As Montanhas Rochosas do Canadá.
Um prato. Esta é difícil! Tenho muitas refeições memoráveis. Esta semana: Ramen no Tori King, em Singapura. Nos tempos recentes: polvo à Lagareiro no Adega em San Jose, Califórnia. Em casa: peito de pato em SousVide com espinafres, cogumelos e castanhas.
Um vício. 50/50 entre comer muito e fazer muito desporto.
Uma personalidade. Patrick Pichette, CFO da Google até 2015, um modelo pela forma como encara a vida sempre com humor, humildade e vontade de explorar.
Um momento. A brisa no topo de uma montanha, após muitas horas a caminhar até lá chegar.
Um sonho. Marte.
 

 

As preferências de Paula

Um livro. The Double Hélix”, de James Watson.
Um filme. The Intouchables”, de Olivier Nakache.
Uma música. “Demons”, dos Imagine Dragons.
Uma curiosidade. Há uns anos celebrei o meu aniversário com o Vítor num restaurante de sushi e ao pé da nossa mesa estava Mark Zuckerberg, CEO do Facebook! [sorriso]
Um clube. Nenhum.
Um desporto. Pratico atividade física regularmente: caminhar, pilates, zumba, boot camp e strength training (musculação localizada).
Um passatempo. Ler livros de receitas e ver programas de culinária, embora não aprecie cozinhar.
Uma viagem. As Montanhas Rochosas do Canadá.
Um prato. Dois: qualquer comida com bacalhau (menos cozido) e… sushi!
Um vício. Comer pão.
Uma personalidade. Duas: o meu pai e a minha mãe. Definitivamente, são quem mais admiro.
Um momento. Quando avistei Machu Picchu após três dias e meio a caminhar.
Um sonho. Ainda era criança e já sonhava viajar para os EUA!
Uma frase. “Excellence is to do a common thing in an uncommon way”, de Booker Washington.
A UMinho. Uma ótima base para a vida, tanto profissional como pessoal.