"Custa-me sair do serviço. Gosto muito do meu trabalho!"

31-03-2015 | Paula Mesquita

Margarita Oliveira é funcionária do atendimento ao público dos Serviços Académicos

Nasceu em Caracas, na Venezuela, há 51 anos. Veio para Portugal com 33. Nunca perdeu o sotaque espanhol e na Universidade reconhecem-na por essa característica e pela simpatia

Margarita afirma que trabalhar nos Serviços Académicos, ainda que no simples arquivo, é uma aprendizagem permanente da dinâmica da instituição

"Quando as pessoas procuram um serviço de atendimento, precisam principalmente de ser ouvidas. E é isso que eu faço: ouço", diz

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Margarita Oliveira

Nasceu há 51 anos na Venezuela. Quis o destino cruzá-la com a UMinho e nunca mais a largou. É o rosto mais conhecido dos Serviços Académicos, talvez devido ao sotaque espanhol e ao sorriso com que recebe cada pessoa.


Nasceu em Caracas, Venezuela e é filha de pais portugueses. Porque veio para Portugal?
Na altura em que vim para Portugal já estava casada. Tinha 33 anos. Tanto eu como o meu marido tínhamos intenções de vir e, com o primeiro golpe de estado, em 1992, isso tornou-se uma obrigação. Portanto, fiz todo o percurso académico na Venezuela. Fui professora do ensino primário e, enquanto exerci a profissão, voltei aos estudos e tirei também a licenciatura em Educação. Tive a oportunidade de trabalhar no ensino secundário, a ensinar Castelhano, e mais tarde, surgiu-me a possibilidade de lecionar no ensino superior, mas, com o golpe de estado, saí do país. Já vim com as minhas duas meninas: uma tinha 3 e a outra 4 anos. Eram muito pequeninas e foram tempos difíceis. Às vezes, tinha que as levar comigo para o trabalho. O meu marido também era português, de Barcelos. Na altura, era habitual privilegiar-se companheiros da mesma nacionalidade! [sorriso]
 
Como foi a mudança de país?
O meu marido preparou muito bem a vinda, mas vim consciente de que com a minha licenciatura e o meu sotaque seria difícil conseguir trabalho. Dada a nossa ascendência, conseguimos a nacionalidade portuguesa, mas tivemos que nos aventurar e arriscar. Como sou naturalmente lutadora e não me importo de fazer o que quer que seja, desde que dignamente, comecei a trabalhar a dias, em S. Vicente, num minimercado ao lado de minha casa, e depois em casas particulares. Não me custou nada [sorriso] porque conheci pessoas que me ajudaram muito. Retribuí com o meu melhor e fiz amizades para a vida. Entre essas pessoas, houve uma que me disse que conhecia uma pessoa muito generosa, que ajudava muita gente e que, quem sabe, me poderia dar uma nova oportunidade. E foi assim que cheguei ao eng. Antero Alves, na altura, diretor dos Serviços Académicos. Mais do que uma mão, ofereceu-me as duas mãos! Nunca o esquecerei! [sorriso]
 
Começou, então, a trabalhar nos Serviços Académicos da UMinho (SAUM).
Comecei a trabalhar nas mudanças de curso e transferências e entreguei-me de alma e coração! Trazia as minhas filhas para o serviço. Reconheço a preciosa ajuda que o eng. Antero me deu e por isso esforcei-me ao máximo para corresponder ao que me pedia e às orientações que me dava. Foi extremamente bondoso comigo! E, para além disso, era uma pessoa muito inteligente, pensadora e estratega, em prol da UMinho. Talvez por causa disso, antecipou aquilo que eu poderia oferecer à Universidade e, 15 dias após ter começado a trabalhar, “atirou-me aos leões” e passou-me para o atendimento ao público! Eu identifiquei-me logo com as funções: adoro o contacto com o outro, adoro servir e adoro “vender” e defender a Universidade do Minho.
 
Como foi, entretanto, o seu percurso nesta academia?
Sempre exerci funções de atendimento ao público e aos alunos, embora tenha também, a certa altura, prestado apoio administrativo na Divisão de Pós-graduação. Anos mais tarde, após ter conseguido o reconhecimento de grau pela Universidade do Porto, ingressei na primeira turma da licenciatura em Educação, na UMinho, no ano de 1995. Durante o curso, infelizmente, o meu marido adoeceu. Interrompi os estudos. Quando retomei, fiz o estágio nos SAUM, com o apoio e orientação da dra. Carla Lavrador, que entretanto assumiu a direção dos Serviços. Ajudou-me muito a chegar a bom porto. Com a entrada em vigor do Processo de Bolonha, fiz o mestrado. Os dois anos do mestrado e a conclusão do curso foram uma delícia! [sorriso]
 
Que funções desempenha no atendimento dos SAUM?
A minha função essencial é informar! Presto informações sobre toda a componente académica: sobre inscrições, transições de ano, existência e importância dos estatutos especiais, quais as condições para usufruir desses estatutos, regulamentos, propinas e muitas outras questões. Por muito completas que sejam as páginas eletrónicas - e, neste caso, o Portal Académico da UMinho -, os alunos procuram constantemente a nossa ajuda. Creio que, nesse âmbito, os SAUM têm prestado um bom serviço.
 
Revê-se e realiza-se no que faz?
Muito. Visto a camisola, tanto pelo serviço, como pela Universidade, por duas razões: primeiro, porque me deu uma nova oportunidade na vida e viu-me renascer, e depois porque saem desta Casa alunos de mérito, que se distinguem em Portugal e no estrangeiro, que fazem valer a pena todo o empenho que dedico a cada aluno que nos procura! [sorriso] Acho que as pessoas, quando procuram um serviço de atendimento, precisam principalmente de ser ouvidas. E é isso que eu faço: ouço. Deixo que elas falem, que exponham as suas dúvidas e as preocupações, para depois poder ir ao encontro delas. Eu até tenho Facebook! Apesar de não abrir a página com muita frequência, a internet e as redes sociais são uma ferramenta importante para perceber os tempos, as modas, as necessidades, as preocupações… Se, passado algum tempo, alguém volta ao serviço e diz-me “Lembra-se de mim? Estive cá há quatro, cinco anos, com esta e aquela preocupações e a Margarita ajudou-me com isto e aquilo”... Bom… sinto-me orgulhosa! [sorriso] Não podia sentir-me de outra forma. E prossigo o meu trabalho! Babada! [risos]
 
Qual foi o maior desafio com que se confrontou?
Ter começado a fazer atendimento ao público quando ainda mal conhecia a casa e os próprios estudantes. Não imagina o que eu fazia para me enquadrar: chegava a casa e ouvia Paulo Gonzo e Xutos & Pontapés [risos] para poder chegar mais perto dos alunos! Não queria que tivessem problemas comigo. Já bastava o sotaque da senhora espanhola, venezuelana, brasileira ou outra coisa qualquer! [risos] Não queria ficar mal perante o meu chefe, que tinha apostado em mim, nem podia deixar ficar mal a instituição que representava! Então, ouvia música. Gravava e desgravava músicas continuadamente. Lutei muito para contrariar o meu sotaque e fazer-me compreender. Por isso é que lhe chamei a minha “atirada aos leões”. Por isto é que me marcou tanto!

Como vê o trabalho feminino na Universidade?
É lindíssimo! Reflete a luta individual e incansável das mulheres! Falo por mim e pelas minhas colegas de trabalho: empenhamo-nos no posto de trabalho e conseguimos conciliar esse papel com o de mulher, de mãe, de filha, equilibrando-os harmoniosamente! Quando não estamos “arrebitadas”, tomamos uma aspirina e damos o nosso melhor! [sorriso] Somos capazes de tudo! A mulher minhota tem garra!
 
Já se sentiu privilegiada ou prejudicada no trabalho por ser mulher?
Os SAUM são um serviço de mulheres; por isso, nunca senti uma ou outra coisa. De qualquer forma, estamos bem para este serviço porque somos sensíveis e naturalmente mais atentas às preocupações e necessidades do nosso público.
 
O que é que ainda lhe falta concretizar na UMinho?
Talvez gostasse de poder dar ainda mais de mim. Estou disponível para o que precisarem, na divulgação da UMinho. Mesmo para além do horário de trabalho. Se não puder quatro horas, posso duas. Algum tempinho encaixa-se sempre! [sorriso] E fá-lo-ia da forma mais fiel e zelosa que sei. Sou assim e sempre fui.



Os gostos, os amores e as referências de Margarita
 
Um livro. Nenhum em particular. Gosto muito de ler. Leio continuadamente, mas aos pouquinhos de cada vez. Não me resta muito tempo, para falar a verdade! [sorriso]
Um filme. Adorei “O Código Da Vinci”, de R. Howard. Mas a verdade é que também não vejo muita televisão! [sorriso]
Uma música. Gosto muito de música portuguesa e adoro fado.
Uma figura. Tenho muitas. A minha mãe; por todo o sacrifício que fez ao longo da vida. O eng. Antero, que me deu a oportunidade de mudar a minha vida. O Papa Francisco, por todas as iniciativas e ações que tem desenvolvido em prol do bem-estar e entendimento entre nações. A dra. Carla Lavrador, a minha chefe, por fazer avançar ainda mais os SAUM. E o atual reitor da UMinho, por levar mais além a nossa Universidade e contribuir para a destacar um pouco mais entre as demais.
Um passatempo. Custa-me sair do serviço. Gosto muito do meu trabalho. E, depois, outros projetos em que me envolvi não permitem que reste muito tempo. No que me resta, [em tom de segredo] gosto de cantar, de tocar viola e de dançar. Adoro dançar! [sorriso]
Um momento. O Hoje e esta entrevista! Fiquei nervosa e em pulgas! [risos]
Um vício. O tabaco. E o meu serviço. Acho que é o meu “amante”! [risos]
Um sonho. Gostava que o mundo inteiro conhecesse o nosso País. Portugal deu-me tudo: estabilidade, segurança, a oportunidade de trabalhar no que verdadeiramente gosto, e família. As minhas filhas nasceram em Caracas, mas foi aqui que as vi crescer. Foi aqui que perdi o meu marido, mas também foi aqui que renasci e ganhei vontade de prosseguir. É cá que me sinto feliz! Não voltei à Venezuela e não tenho saudades.
A UMinho. É tudo! Não tenho mais palavras. É tudo!