A nossa estrela do andebol

30-06-2016 | Nuno Passos

A festejar a conquista do campeonato nacional, em junho de 2016 (foto: Lusa)

A levantar a Challenge EHF, a primeira taça europeia em 83 anos de história do ABC/UMinho (foto: Lusa)

Humberto Gomes dedicou a Taça Challenge ao falecido treinador Aleksander Donner: "Foi ele que apostou em mim"

Apresentação da equipa senior de andebol do ABC/UMinho na Reitoria, em setembro de 2015

Humberto Gomes nos tempos do Sporting, em 2009

Em 2005, quando defendia as redes do Belenenses

No Campeonato Europeu Universitário de Andebol, em 2011, a representar a academia minhota (com o nº 1)

Humberto Gomes a defender as "cores" da AAUMinho, em 2014

A receber o Prémio de Mérito Desportivo 2015, provando que é possível conciliar os estudos com o desporto de elite

O aluno-atleta bracarense foi distinguido com o troféu O Minhoto em março de 2011 (foto: Alberto Queirós)

A apadrinhar a campanha de recolha de brinquedos "Deixe um Sorriso", em dezembro de 2013, na UMinho

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Humberto Gomes

Entrevista de vida ao aluno finalista de Engenharia Civil e capitão do ABC/UMinho, que este ano venceu a Supertaça, o Campeonato Nacional e a Taça Challenge em andebol. Aos 38 anos sente-se globalmente no pico de forma e "ainda com muitas alegrias para dar".


Nasceu a 1 de janeiro de 1978 em Braga e viveu a infância na Venezuela. Sempre quis seguir o curso de Engenharia Civil e, após 20 anos de resiliência, está a terminar a sua dissertação de mestrado na UMinho, dedicada à aplicação de gessos na construção. O seu percurso é mais conhecido pelo andebol. Em 25 anos como atleta federado fez cerca de 1200 jogos, 80 deles na baliza da seleção nacional, e passou por seis clubes – ABC/UMinho, SC Braga, FC Gaia, São Bernardo, Belenenses e Sporting. Venceu duas taças europeias Challenge, quatro campeonatos nacionais, três taças de Portugal e uma supertaça.
 
A nível universitário foi vice-campeão do mundo, bicampeão europeu e octocampeão nacional. Recebeu ainda os galardões O Minhoto e A Nossa Terra. A equipa sénior do ABC/UMinho tem mais seis alunos a estudar nesta academia: Diogo Branquinho (Engenharia Têxtil), Nuno Rebelo (Biomédica), João Gonçalves (Engenharia de Gestão e Sistemas de Informação), Miguel Sarmento (Ciências da Comunicação), Carlos Martins (Ciências de Computação) e Fábio Vidrago (Direito), que está de saída para o Benfica.

 

Como optou pelo curso de Engenharia Civil na UMinho?
Desde miúdo que gosto da área. No 10º ano segui a vertente de ensino ligada à engenharia, na Secundária Alberto Sampaio, e no final do 12º ano felizmente tive média para entrar no curso, fiquei contente.
 
Lembra-se das primeiras aulas?
Era complicado conjugar as aulas com o andebol, porque tinha treino de manhã em Braga, saía ao meio-dia para o autocarro da UMinho até ao campus de Azurém [Guimarães], assistia a três, quatro aulas e regressava às cinco para o treino da tarde. Fiz poucas disciplinas entre 1996 e 2000. Talvez com muito sacrifício tivesse feito mais. Decidi enfim fazer uma pausa e apostar tudo no andebol. Era difícil envolver-me em alguns projetos e, por outro lado, não pude participar na vida académica e cultural, como a Gata na Praia, a Gata na Neve… ao Enterro da Gata ia um diazinho, se não houvesse jogos. O desporto tem coisas fantásticas, mas também tem privações.
 
Foi um atleta com estatuto Tutorum.
Nisso, a UMinho não tem comparação com outra universidade portuguesa. Recomendo a todos os jovens que pratiquem desporto a virem estudar para cá. Entrei no programa Tutorum e tive desde a compreensão dos professores, alteração da data de exames, apoio em burocracias. Claro que um ou outro docente é mais rígido, há que aceitar. Alguns deles ajudaram-me, mas sem me favorecer, como Raul Fangueiro, que também tem uma filha no andebol. Nesta universidade tenho feito muitas amizades, desde colegas a funcionários. Uma altura que me marcou foi mudar do 2º para o 3º ano – percebi que havia menos teoria e Matemática, o que me deu uma força extra para acabar o curso.
 
Começou na licenciatura e termina no mestrado integrado.
Sim. Falta entregar a tese, talvez para dezembro. Vou fazer experiências em laboratório com painéis de gesso e ainda comparar o gesso vendido nas lojas com o gesso natural produzido numa aldeia de Bragança. Sou orientado pela professora Rute Eires. Vou aproveitar as férias do andebol para dar um bom empurrão. Falta-me tempo livre. Comecei entretanto a trabalhar na F. Two Space, uma jovem empresa de engenharia em Braga, e tenho aprendido muito. A teoria sabia-a toda da universidade e, por assim dizer, estou agora na parte prática.
 
Onde vai buscar essa resiliência de, após 20 anos, nunca desistir do curso?
Quando parei os estudos, os meus pais [Humberto e Zilda], que não têm muitas posses, avisaram: “Pensa bem no teu futuro”. E respondi-lhes: “Não se preocupem, posso ter 40 anos e não deixarei de jogar andebol sem ter o canudo”. Há dias, o meu pai falou-me dessa conversa, que já nem me lembrava bem, deu-me um beijo e disse: “Estás de parabéns”. Enfim, ao longo do meu percurso fui estabelecendo metas, que fazem a vida avançar e ter sentido.
 
Como vê a atual situação da profissão?
Como diz o povo, “bateu no fundo” há alguns anos, mas está aos poucos a ressurgir. Colegas que entraram comigo no curso e já trabalham há dez anos dão-me conta que várias empresas estão a contratar em força e a precisar de gente. Depois de se ter construído muito, a reabilitação de edifícios é uma aposta em Portugal e no estrangeiro.
 

“Fui para guarda-redes pois nenhum colega queria ir à baliza”
 
Lembra-se quando se iniciou no andebol?
Emigrei aos 2 meses de idade com os meus pais para a Venezuela e regressámos a Braga dez anos depois. Lá não havia andebol. Só conheci a modalidade num treino dos juniores do meu primo David, a convite da sua mãe. Adoro desporto, seja ele qual for, e achei aquilo fantástico, mas sem ideia de o praticar. Um ano depois, no meu 7º ano, o Desporto Escolar deu destaque ao andebol. Fui experimentar, receoso, como guarda-redes, porque ninguém queria ir à baliza. O professor Luís Covas achou-me com jeito. Era treinador do Sporting de Braga e desafiou-me a praticar andebol federado. Estive dois anos com ele e fui depois convidado pelo prof. Jorge Rito para o ABC, onde fiz a formação. Acharam que eu tinha jeito, mas também trabalhei muito, foi mais esforço e dedicação do que talento natural. As coisas correram bem e tenho tido uma carreira bonita. Fui depois um ano para o FC Gaia, outro para o São Bernardo, estive seis anos em Lisboa – no Belenenses (2004-07) e Sporting (2007-10) – e regressei ao ABC.
 
Jorge Rito, Aleksander Donner, Carlos Ferreira, Carlos Resende: que treinador o marcou?
Todos, em momentos diferentes. É curioso, há dias houve um jantar com cem andebolistas bracarenses e Donner foi o mais falado, pelo seu bom e mau feitio. Foi o meu “pai” no andebol; achou que eu tinha algo para dar, viu que o respeitava muito e puxou por mim. Fez-me coisas que eu achava injustas, mas que fizeram crescer imenso – hoje deixo-lhe um “muito obrigado”. Agradeço ainda ao Resende, por ainda acreditar em mim, e ao Ferreira, por me levar cada dia a trabalhar a 100%.
 
Quando quer terminar a carreira?
Perguntam-me muitas vezes, mas sinceramente não penso nisso. Tenho mais dois anos de contrato, até aos 40 anos [sorriso]. Enquanto precisarem de mim e o corpo e a mente responderem, quero manter esta paixão enorme. Na conciliação de vários aspetos sinto-me no pico de forma, como a maturidade, mentalidade, colocação, conhecimento sobre os atletas. A nível físico custa-me mais a recuperação, se tiver por exemplo que jogar dois dias seguidos.
 
Perguntam-lhe se ainda tem “paciência para jogar pelos universitários”?
Muitas vezes! Claro que tenho. Queria ter ido às Universíadas e, agora, ao Mundial, mas já ultrapassei os 35 anos. É pena, a UMinho diz-me muito - temos uma equipa e um ambiente fantástico.
 
E o que quer fazer quando “pendurar as sapatilhas”?
Mais tarde, sei lá, não tenho ainda perfil para treinador principal (sou impaciente com certas coisas), mas adorava talvez ser treinador de guarda-redes. Em Portugal só o ABC tem um, o Carlos Ferreira. Todas as equipas deviam ter. É consensual que o guarda-redes vale metade da equipa no andebol, por isso merece um trabalho específico. Também acho que as equipas deviam ter um psicólogo. No Belenenses fui seguido por uma, semanalmente, e foi essencial. Todos somos diferentes. De repente bloqueamos, desconcentramo-nos, levamos a vida pessoal para o treino ou, simplesmente, precisamos de desabafar.
 
Como se consegue, mental e fisicamente, defender um lance crucial no último segundo?
São momentos da competição inexplicáveis. Quando correm bem, é o êxtase. Durante o jogo estou permanentemente concentrado, não há espaço para pensar noutra coisa. Antes do jogo é diferente. Para ser sincero, na véspera da finalíssima do campeonato contra o Benfica mal dormi, a perspetivar as coisas. E a uma hora do início tinha o coração na boca, mas quando o árbitro apitou a ansiedade desapareceu. No fim foi uma adrenalina incrível, pois ganhámos e voltamos a encher o pavilhão Flávio Sá Leite como eu o conheci nos anos 90.
 
As pessoas vão atrás dos resultados?
É a mentalidade portuguesa. Se estivéssemos a meio da tabela ou a lutar para não descer, o pavilhão não estaria assim. Fizemos uma travessia no deserto. Ex-atletas e alguns dirigentes não vinham aos jogos. Claro que agradeço a todos terem vindo às finalíssimas, mas queria que continuassem a encher o pavilhão e a apoiar, porque jogamos um bom andebol.
 
Qual foi o maior momento da sua carreira?
Este ano foi fantástico. Ganhámos três das quatro provas possíveis. Regressei a Braga em 2010, após oito anos, e senti uma grande nostalgia porque as condições não eram as mesmas, desde financeiras a estruturais e de apoios. Tivemos jogos com 10, 12 pessoas no público, que eram familiares, namoradas e amigos. Eu disse à secretária do clube e a uma estagiária: “Catarina e Anabela, não deixarei de jogar enquanto não encher o pavilhão e não for campeão”. O mais bonito é que, seis anos depois, atingi esses objetivos e uma delas postou há pouco no facebook o teor dessa conversa, achando que eu na altura estaria louco, e agradeceu as conquistas. [sorriso]
 
Como gostava de ser lembrado?
Como um bom atleta e um bom homem. Tenho feito muitos amigos por onde passei. Procuro ser humilde, talvez não tenha ido mais longe na carreira por isso, mas não me arrependo nada.
 


Perfil
 
Uma música. Adoro música brasileira, em especial o Grupo Revelação. Mas ouço de tudo. A minha mulher [Liliana Nogueira] é cantora lírica e até ópera escuto.
Um livro. "O Código da Vinci", de Dan Brown, que chegou ao cinema com o ator Tom Hanks.
Um filme. Gosto de histórias inspiradas em factos reais.
Um clube. Sou benfiquista. Mas no andebol, claro, é o ABC/UMinho.
Um desporto. Além do andebol, gostava de ter sido futebolista, a médio-centro.
Um prato. Sardinha com salada de pimentos. Curiosamente, na infância era esquisito a comer, adorava bife com batatas fritas, mas depois mudei.
Um vício. Videojogos. Na juventude passava horas nisso!
Uma coleção. Tenho algumas cadernetas de cromos completas de Mundiais de Futebol. [sorriso]
Uma personalidade. Barack Obama. Gerou uma mudança de paradigma na Presidência dos EUA. O Papa João Paulo II também foi importante para o mundo e os católicos. Vi-o quando vivia em Caracas, na Venezuela.
Um momento. O nascimento da minha filha Lia há um ano. Estivemos 48 horas no hospital, ela não queria sair, mas em 10 minutos “decidiu-se” e foi uma alegria imensa. Outro momento foi, há dias, ver os meus pais no Sá Leite, após ganharmos o campeonato. A minha esposa foi buscá-los para festejarem comigo. Eles ficam muito nervosos nos jogos ao vivo e, em toda a carreira, só me tinham ido ver uma vez. Eles são a estrela que me guia. São os melhores do mundo; perfeitos não, porque isso não existe. Estou honrado pelos valores que me deram.
Uma viagem. A minha lua-de-mel em Cuba, descobri uma realidade diferente. Já estive seis vezes no Brasil, tem uma alegria contagiante que faz falta cá. Queria também ir à Tailândia e a Nova Iorque no natal. Às vezes dizem que conheço a Europa graças ao andebol, mas na maioria das vezes era aeroporto-hotel-pavilhão.
Um lugar. Os campos de concentração de Auschwitz, na Áustria. Toda a gente devia conhecê-los. É surreal o que o ser humano foi capaz de fazer e ainda se sente ali: tristeza, dor, pânico.
Um lema. “É preciso semear antes de colher.” Repito-o aos mais jovens no ABC. Também se aplica aos recém-diplomados. Temos que começar a trabalhar e merecer oportunidades antes de reivindicar bons salários e regalias, porque no mercado há quem sabe mais só pela prática.
A UMinho. É a melhor universidade do país. Tem professores e condições ideais para formar pessoas da melhor qualidade.