Temperaturas afetam ecossistemas e organismos aquáticos

02-05-2017 | Pedro Costa

Isabel Fernandes é licenciada em Biologia Aplicada, mestre em Genética Molecular, doutorada em Ciências Biológicas e pós-doutoranda em Ecologia de Fungos Aquáticos, sempre pela UMinho. Está ligada aos projetos Agrhydrom e EcoAgriFood

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Estudo de Isabel Fernandes, do Centro de Biologia Molecular e Ambiental, com trabalhos na Islândia em parceria com o Imperial College of London, aponta para efeitos nas linhas de água doce.




A investigadora do Centro de Biologia Molecular e Ambiental (CBMA) da Escola de Ciências da UMinho tem trabalhado no sentido de perceber de que forma as pressões humanas e ambientais afetam o funcionamento dos ecossistemas de água doce e as comunidades que neles habitam. Ao NÓS – Jornal Online de UMinho, Isabel Rodrigues Fernandes faz um primeiro balanço da sua corrente de investigação, apontando alguns sinais preocupantes relacionados com o aumento das temperaturas e com a intervenção humana no ambiente (VÍDEO).
 
O seu modelo de estudo é a decomposição de matéria orgânica de origem vegetal em ribeiros, um processo muito importante nestes ecossistemas, pois está na base da cadeia alimentar. "Desde o doutoramento, estudei uma série de fatores de pressões humanas, nomeadamente o excesso de nutrientes na água, que é muito comum em Portugal, tanto através dos fertilizantes agrícolas, como através das descargas de esgotos que acabam por ir parar às linhas de água, afetando as águas doces e os seus microrganismos”, revela.

Depois disso, além desses fatores isolados, despertou o interesse para o fator temperatura, atendendo ao facto de se prever que até final do século o aumento médio poderá chegar aos 4º C. Logo, este é um aspeto decisivo a ponderar na avaliação, já que também “pode alterar de forma drástica a diversidade dos organismos e as suas funções nos ecossistemas”, considera Isabel Fernandes. Em resumo, a bióloga investiga de que forma as alterações da vegetação ribeirinha, o excesso de nutrientes na água por atividade antropogénica e o aumento da temperatura afetam a decomposição de matéria orgânica e as comunidades microbianas por ela responsáveis.
 
Enquanto investigadora, colabora com um grande grupo sedeado no Imperial College of London, no Reino Unido, que tem desenvolvido trabalho numa zona específica da Islândia, para analisar em contexto natural o modo como o aquecimento global pode afetar os organismos de águas doces. O projeto tem sido desenvolvido num “laboratório natural com cerca de duas dezenas de ribeiros com temperaturas entre 5º e 25ºC, características muito particulares e muito interessantes para entender estes efeitos, dado que os organismos estão neste ambiente há dezenas, centenas, talvez até milhares de anos”, assinala Isabel Fernandes. “Este local, onde estive em 2016 pela primeira vez a efetuar amostragens, é o ex-libris para estudar os efeitos da temperatura nos microrganismos em contexto aquático, pois é o seu ambiente natural, que não é possível replicar em laboratório, num ambiente artificial e menos realista”, realça.
 
Depois da recolha do ano passado, estes sistemas avaliados permitirão nos próximos dois a três anos produzir resultados, “pelo menos quanto ao efeito na diversidade dos organismos”. Ao nível das funções dos microrganismos no ecossistema, “já há alguns resultados preliminares que parecem indicar que a temperatura acelera os processos de decomposição”, o que pode ter consequências, já que "a mais rápida decomposição destes recursos faz com que outros percam a sua fonte de alimento, provocando um desfasamento entre o alimento e a existência desses organismos, podendo limitar a sua existência no futuro”, revela a cientista.
 


Temperaturas e alterações climáticas em Portugal

No que toca às alterações climáticas globais, a investigadora do CBMA fala da necessidade de implementar “medidas preventivas ao nível do comportamento humano num futuro próximo”. Apesar de não haver um consenso mundial quanto a esta matéria, Isabel Fernandes considera que “já há um volume de investigação suficientemente grande para percebermos que há, de facto, uma influência da intervenção humana nos fenómenos, como o aumento da temperatura e outros fatores de alterações climáticas atuais”. Por isso, defende medidas regulamentares no uso dos combustíveis fosseis e algumas mudanças no uso de recursos mais sustentáveis, que “podem ajudar a atenuar os efeitos ou, pelo menos, impedir que o aumento de temperatura continue a subir de forma constante”.
 
Quanto a Portugal, "está dividido em dois", tendo um clima “atlântico, temperado, a Norte do país, que contrasta com um clima claramente mediterrânico a Sul”, afirma. Considera que o Sul deverá sofrer no futuro um efeito mais intenso de secas. De qualquer forma, “há uma grande quantidade de fatores a ter em conta nas alterações climáticas, como a pluviosidade, ou os fenómenos extremos, que pela sua imprevisibilidade poderão não ter um padrão muito definido no território”, sustenta.