O Museu Nogueira da Silva "é um marco cultural" de Braga

30-06-2018 | Nuno Passos | Fotos/Pictures: MNS

Miguel Duarte na apresentação do livro "Maria Ondina Braga. (Re)leituras de uma obra", em julho de 2017, com José Manuel Mendes, Isabel Mateus, Cândido Oliveira Martins, Henrique Barreto Nunes, Ricardo Salgado e Carlos Corais

Esta unidade cultural da UMinho situa-se no nº61 da avenida Central, em pleno centro de Braga

Vista da rua sobre a galeria junto ao átrio de entrada, no Festival das Lanternas, organizado pelo Instituto Confúcio da UMinho

Estátua de Jorge Barradas no hall de entrada, junto à escada principal

Uma referência obrigatória ao patrono, que foi alvo de uma ampla exposição em 2016-2017

Momento dos Encontros da Imagem, em setembro de 2016

Sessão mensal das Conversas sobre Imagens de Braga, com António José Mendes e Eduardo Pires de Oliveira

Já no primeiro andar, na sala Jorge Barradas, a mostra "Design Methodology", organizada por Bernardo Providência em 2017

Já no primeiro andar, sobressai a riqueza no mobiliário e das telas

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, foi entrevistado em fevereiro de 2017 numa destas salas

No corredor merece destaque a faiança de diversas épocas e geografias

As pratas, peças religiosas e cerâmicas ocupam um compartimento adjacente

De visita obrigatória, o salão nobre é palco de diversas iniciativas culturais de âmbito nacional e internacional

Concerto do projeto norte-americano Joshua Abrams & Natural Information Society, em maio de 2017

Atuação do Sindicato de Poesia, em julho de 2016

Peça da exposição "Instantes da Matéria", de Paulo Neves, na parte traseira exterior do MNS

Os jardins possuem grande diversidade de peças artísticas e de espécies de flora

A ação educativa e para o público jovem é uma prioridade na programação do Museu

Momento familiar de "Uma Aventura no Jardim do Museu", em maio de 2015

Os azulejos também estão presentes no exterior deste espaço cultural da academia

O Espaço Maria Ondina Braga, criado em 2014, dinamiza atividades e o espólio sobre a escritora bracarense falecida em 2003

A cada mês há um objeto em destaque, sendo em junho este prato de oferendas, do tipo de Nuremberga, de final do século XV/início do século XVI, de latão cinzelado e com relevos a representar ao centro o Agnus Dei

O Museu Nogueira da Silva guarda muitos segredos e olhares

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Miguel Bandeira Duarte

Entrevista ao diretor do MNS, no âmbito do ciclo de conversas com os responsáveis das seis unidades culturais da UMinho.


O Museu Nogueira da Silva (MNS) surgiu em 1975, na sequência da doação do comendador Nogueira da Silva. Com que objetivo?
António Augusto Nogueira da Silva (1901-1976), um ilustre comerciante de Braga, fundador da Casa da Sorte, ao construir a sua casa na avenida Central e ao adquirir as coleções que a preencheram, pretendeu enriquecer o património artístico da cidade e criar um espaço que recebesse, com dignidade, os ilustres convidados que a visitavam nos anos cinquenta e sessenta do século XX. Sem descendentes, escolheu a cidade como sua herdeira, através da jovem Universidade do Minho, comprometendo-a por testamento, com a criação do Museu Nogueira da Silva.

Chegou a conhecer o comendador Nogueira da Silva? Que impressão/opinião tem sobre ele?
Não tive oportunidade de o conhecer. Quando nasci, o comendador teria 69 anos e eu vivia noutra cidade. Visitei Braga no ano em que faleceu. A impressão que realizo, mais do que opinião, parte de uma construção a partir dos escritos que foram sendo publicados sobre a sua notável, porém, discreta vivência. Saliento os relatos do sr. António Tinoco, que fora presidente do conselho de administração da Casa da Sorte e seu amigo pessoal. Tratando-se de uma figura próxima do regime de Oliveira Salazar, o seu perfil filantrópico foi uma marca francamente positiva da sua personalidade. Como colecionador enquadrou-se a par de notáveis da sua época, como Henrique Amorim, Dionísio Pinheiro, entre outros.
 
Como descreveria o espaço e espólio do MNS, para quem ainda não o visitou?
Como em qualquer Museu, nunca nele permanecemos tempo suficiente para de uma só vez realizar uma perceção detalhada do seu espólio. Digo-o tendo a oportunidade de percorrer as salas e corredores com a maior liberdade e de me deter em qualquer dos objetos o tempo que desejar. Continuo a impressionar-me quando julgo ter descoberto algo novo na coleção. Se é assim com o espólio visível, as reservas “escondem” outros tantos tesouros. O edifício é sóbrio, mas sumptuoso e a exuberância cromática do jardim é contemplada pela estatuária italiana. As tapeçarias, a pintura antiga, a porcelana, os vidros, o mobiliário e tantos outros objetos de um passado exótico são fontes para os visitantes se alienarem das rotinas quotidianas e experimentarem, através da arte, a diversidade expressiva e multicultural que Nogueira da Silva propôs a quem o visitava nos anos de 1960 e 1970.
 
Que balanço faz do percurso deste Museu até ao momento?
Sou o sexto responsável desde 1976. O contexto em que o faço é muito distinto do início de Luís Mateus. As grandes transformações advêm da progressiva abertura do museu aos diversos públicos, marcadas por iniciativas em áreas artísticas afins à coleção, a partir de ou inspiradas pelo espólio. Resultam também dos diversos domínios de especialidade e interesse de cada direção, bem como das transformações sociais e culturais operadas nestes 42 anos de atividade. O museu é desde a sua origem um marco cultural na cidade de Braga, extrapolando-a. Esse facto, que corresponde ao desígnio do fundador, é o denominador de todas as ações realizadas. As primeiras exposições com jovens artistas, hoje autores consagrados, a organização do centro de documentação fotográfico, os colóquios internacionais; o serviço educativo, o estudo das coleções e a série de exposições temáticas que se seguiram, a requalificação de áreas com a criação de novas galerias, o Espaço Maria Ondina Braga (dedicado a esta escritora) e a abertura dos jardins e da cafetaria perfazem um percurso reconhecidamente exemplar e inspirador.
 
Que eventos destaca?
A programação do MNS é bastante completa, com eventos que possuem um cariz distinto e diversificado. Existem aqueles que se marcam pela regularidade, com o qual o público pode contar para uma visita semanal ou mensal. Por exemplo, as "Conversas sobre Imagens de Braga" com Eduardo Pires de Oliveira e António José Mendes; a "Comunidade de Leitores de Filosofia" organizada pelo Departamento de Filosofia da UMinho; os recitais de música clássica ou os concertos de jazz propostos pela RUM. Mais espaçadamente, destaco as exposições temporárias, bimensais, procurando que a Galeria da Universidade apresente o mais contemporâneo da expressão artística nacional e internacional; ainda no plano do conhecimento, as extraordinárias palestras propostas pelo Instituto Confúcio da UMinho. Menos regulares, mas com grande impacto, os colóquios internacionais organizados pelo Museu ou com a sua colaboração, destacando-se o recente "Geografias Culturais da Música", com o Departamento de Geografia da UMinho, e o que decorrerá em outubro, na sua segunda edição, "Maria Ondina Braga: Viagens e Culturas em Diálogo".
 
Como avalia a recetividade do público?
O público caracteriza-se pela imprevisibilidade, nunca se sabe se comparecerá e em que número. Creio existir um grau de satisfação elevado nos frequentadores dos eventos, a contar pelas notas registadas no livro de visitas. Em geral, o público é mais motivado quando as atividades são protagonizadas por artistas ou performers reconhecidos. Esta relação dá a entender que a procura se baseia na segurança do que conhecem em lugar de uma fruição mais experimental.
 


O conceito de museu está a transformar-se

Quais são os principais projetos para os próximos tempos?
O conceito de museu tem vindo a transformar-se numa estrutura cada vez mais complexa no que diz respeito ao conjunto das exigências museológicas e museográficas, no estudo das coleções, na sua exposição e comunicação com os públicos, procurando uma fruição duradoura e integradora. As ações vindouras procuram sempre a valorização das coleções pela sua divulgação, numa atualização progressiva face a tendências contemporâneas dos meios e dos suportes que o possibilitam. Contamos produzir, em breve, alterações no espaço expositivo, ampliando a capacidade de mostrar as coleções e contar as histórias que lhes estão associadas. Retomou-se o trabalho em torno do Centro de Documentação Fotográfico (Fototeca), para que num futuro próximo o que é dado a conhecer possua o enquadramento da coleção em que se encontra. Uma nota, ainda, para a continuidade do trabalho de divulgação da obra da escritora Maria Ondina Braga.
 
Em que medida projetos como o do MNS contribuem para a missão da Universidade?
O MNS é uma unidade cultural da UMinho totalmente enraizada na sua génese. A Universidade recebeu os primeiros estudantes em 1975, o mesmo ano do legado de Nogueira da Silva. Não sendo um instrumento, o MNS é um espaço privilegiado para o conhecimento e a discussão de assuntos relacionados com o enriquecimento cultural e artístico. Com uma pequena equipa, procuramos sinergias dentro e fora da comunidade universitária que viabilizem a investigação e a transferência de conhecimento a partir do espólio do museu e da sua identidade no contemporâneo. Boa parte dos eventos continua a ter um acesso e uma fruição livre.
 
Quer deixar alguma mensagem final?
Duas. A primeira, relativa à necessidade de integrar os espaços culturais na rotina diária como espaço de fuga, para que as ideias e a criatividade tenham espaço para se manifestarem. A segunda, que o museu continue a ser um espaço de resistência e permanência civilizacional face à flutuação da existência virtual.