Prémio de Mérito à Investigação 2014

17-02-2014 | Pedro Costa e Nuno Passos

A proferir a oração de sapiência “A perceção do tempo no homem e nos animais”, no Dia da UMinho em 2012

Ouvimos anedotas do cavalo que tira raízes quadradas e do cão da vizinha que sabe contar. Os animais não saberão tanto, mas são sensíveis ao número e ao tempo

A investigação sobre o número e o tempo no animal pode contribuir para casos práticos como despistar crianças com dificuldades em matemática e perceber como funciona o relógio biológico que nos dá o sentido do tempo.

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O catedrático e psicólogo Armando Machado é uma referência a investigar como os animais percecionam o tempo, o número e fazem escolhas.




É professor catedrático da Escola de Psicologia e coordena o Laboratório de Aprendizagem e Cognição Animal, o único do género em Portugal. É, também, uma referência na investigação como os animais percecionam o tempo, o número e fazem escolhas - e sim, são próximas às dos humanos. Filho de transmontanos, Armando Machado nasceu em Moçambique há 52 anos e veio para Portugal com 12 anos. Fez a licenciatura em Psicologia na Universidade de Lisboa e o doutoramento e pós-doutoramento em Psicologia Experimental na Duke University (EUA). Foi professor com nomeação definitiva na Universidade de Indiana (EUA), além de investigador nas universidades de Liège (Bélgica) e Brown (EUA).
 
Por razões familiares voltou em 2000 e fixou-se na UMinho, “uma universidade nova e pujante”. A sua pesquisa já foi financiada pelo National Institute of Mental Health e pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. Tem mais de 60 artigos publicados e faz parte do conselho editorial de revistas de referência. Presidiu ainda à Society for the Quantitative Analysis of Behavior (EUA) e à Associação Portuguesa de Psicologia Experimental. Foi também premiado pela Associação Americana de Psicologia e, em 2014, recebe o Prémio de Mérito à Investigação da UMinho. Nos tempos livres gosta de ler sobre a história da ciência, jogar xadrez, dançar e ir ao cinema.

 
O que descobriu na comparação entre o comportamento dos animais e o humano?
É difícil generalizar, pois esta área científica é recente. Mas podemos afirmar que a aprendizagem e a perceção do número e do tempo são características de praticamente todos os animais estudados em laboratório e também das pessoas. Se eu pedir para calcular cinco segundos sem relógio, comete algum erro, entre os 4 e 6 segundos. Se estimar dez segundos, o intervalo de erro duplica. Podemos dizer que a perceção do tempo segue leis, identificáveis e quantificáveis.

Há certas experiências que nos fazem acelerar ou arrastar a perceção do tempo.
Sim, exatamente. No caso do número, a criança aprende a contar por discriminações grosseiras, como a distinção primitiva entre o mais e menos numeroso, que outros animais também fazem. Além do trabalho em laboratório com pombos, temos alunos de doutoramento a estudar fenómenos semelhantes com crianças e com adultos. Outros colegas investigadores fazem estudos com outras espécies animais. É a chamada psicologia comparada.
 
Uma das metas é perceber melhor o comportamento humano?
Não vemos o animal especificamente como instrumento para compreender ou beneficiar o comportamento, a fisiologia, o sistema nervoso e a ecologia do Homem. Era como estudar o fenómeno da linguagem e ficar-me pela língua portuguesa. Queremos também entender o comportamento animal em si. O processo é lento, multideterminado, com várias abordagens.
 
Que fatores o motivam para continuar a investigar?
A ciência tem a recompensa da descoberta e do valor social. Mas muitas vezes é frustrante, não se descobre nada. De vez em quando aparece alguém que, na base do trabalho de outros, dá um forte impulso, com impacto tecnológico e social. A minha área científica é talvez das mais importantes. Os grandes problemas estão ligados ao comportamento. Criminalidade, natalidade, obesidade, toxicodependência, estilos de vida, poluição… Se percebemos como o modificar, contribuiremos mais do que muitos avanços tecnológicos. É uma ciência que faz o interface com outras ciências.
 
Do que se faz um cientista?
Faz-se do mesmo que um músico, um operário… Faz-se de trabalho, de frustrações, de motivação, de alguma sorte  e bons genes. Um cientista não é diferente do comum dos mortais. Curiosamente, a minha ligação aos animais aparece por motivos académicos. Nunca tive gato ou cão de estimação, por exemplo.
 
Como é o seu dia típico?
Dou aulas das 9h00 às 12h00, passo muito tempo no computador a rever artigos e planear a pesquisa. Vou ao laboratório, converso com alunos de doutoramento e mestrado e fico na UMinho até às 18h30. Os animais não respeitam o fim de semana e muitas vezes venho para seguir experiências, também em agosto, um dos meses mais “rentáveis” na investigação.

O que o move para além da investigação?
Na juventude jogava xadrez, fiquei obcecado, depois joguei futebol, adoro desporto. Também gosto de ir ao cinema, ler, programar, viajar quando posso... Mas a minha vida é um pouco a academia, com as restrições e os custos/benefícios que tem. De resto, sou um cidadão tranquilo.