"A Academia pode ter um papel crucial para aproximar Portugal e Brasil"

03-07-2019 | Nuno Passos

No final da defesa da tese doutoral, com o júri, na sala de atos do Instituto de Ciências Sociais da UMinho, em abril (foto: CECS)

"Há um verdadeiro apagão mediático português no Brasil; para isso mudar impõe-se uma estratégia de aproximação de longo fôlego, para além das efemérides e dos falsos ditirambos oficiais", explica (foto: CECS)

A sua tese doutoral, fruto de uma investigação entre 2013 e 2018, pode vir a ser lançada em livro em 2021-22, aquando dos 200 anos da independência do Brasil (foto: Carlos Fino)

A Universidade de Brasília agraciou-o em novembro de 2013 com o diploma de Notório Saber em Comunicação (foto: ColorizeMedia.com)

Junto à Catedral de Brasília, em 2009 (foto: UP Magazine)

Lula da Silva, Presidente do Brasil em 2003-11, incluiu Carlos Fino no primeiro grupo de correspondentes que recebeu no Planalto, em Brasília (foto: Wikipedia)

Cartão de imprensa de Carlos Fino na segunda Guerra do Iraque (foto: DR)

Momento da entrada de tanques dos EUA em Bagdade, em 2003, eternizado na capa do livro 'A Guerra em Directo' (foto: DR)

Um enquadramento clássico do 'Telejornal' da RTP dos anos 80 e 90, com o repórter agasalhado e em direto de Moscovo, junto da Catedral de São Basílio, na Praça Vermelha

Nos primeiros anos como correspondente na URSS, as ligações eram limitadas a nível tecnológico e também político

A direção da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa em 1968-69, com Carlos Fino (à esquerda), Duarte Teives, Manuel Roque, João Arsénio Nunes, Luís Pinheiro de Almeida, Francisco Gonçalves Pereira e João Soares (foto: DR)

Com a esposa Elaine num bar em Goiás, no centro do Brasil (foto: Sangra d'água)

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Entrevista a Carlos Fino, ex-jornalista da RTP e novo doutor em Ciências da Comunicação pela UMinho.




"Carlos Fino, RTP, Moscovo." A memória vem do Telejornal dos anos 80 e 90, colada à memória de aquele repórter ter sido o primeiro no mundo a noticiar, com imagens ao vivo, os bombardeamentos dos EUA em Bagdade, na Guerra do Iraque. Mas... onde estará agora? Bem, acaba de fazer o doutoramento em Ciências da Comunicaçãopela Universidade do MinhoUniversidade de Brasília (UnB). A tese “A (in)comunicação Portugal-Brasil: raízes do estranhamento" foi aprovada com distinção e poderá ser lançada em livro aquando dos 200 anos da independência do Brasil. "Há muito por fazer na aproximação entre estes dois países", o que exige uma estratégia alargada e a longo prazo, defende em entrevista ao NÓS aquele jornalista aposentado, a viver do outro lado do Atlântico.
 
Carlos Fino nasceu há 70 anos em Lisboa, mas viveu a infância em Fronteira, no distrito de Portalegre. Nos anos 70 foi perseguido pela PIDE, por participar no movimento estudantil (enquanto membro da direção da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito de Lisboa) e no movimento da oposição democrática ao Estado Novo. Decidiu abandonar o país clandestinamente até Paris, em França. Rumou depois a Bruxelas, na Bélgica, obtendo o estatuto de refugiado das Nações Unidas. Cursou Direito na Universidade Livre de Bruxelas, mas o que gostava mais era de jornalismo e foi convidado a iniciar a sua carreira profissional em Moscovo, na antiga URSS, como locutor de rádio internacional e tradutor. Voltou a Portugal em 1974, trabalhando como tradutor na delegação de Lisboa da agência noticiosa soviética Novosti, hoje Sputnik, e colaborando com jornais nacionais e a Emissora Nacional (EN), antecessora da Rádio Difusão Portuguesa (RDP). Um ano depois regressou a Moscovo, como correspondente da EN, e começou a colaborar com a televisão pública portuguesa, cobrindo as Olimpíadas de Moscovo de 1980.

Foi precisamente na RTP que Carlos Fino mais se notabilizou, como repórter parlamentar, comentador, pivot, correspondente internacional e de guerra, sub-diretor de Informação, coordenador e apresentador do Jornal 2, correspondente e chefe das delegações em Moscovo, Bruxelas e Washington, nos EUA. Foram dele reportagens sobre o colapso da URSS e do comunismo no Leste europeu, como as quedas dos regimes e primeiras eleições democráticas na Roménia, Bulgária, República Democrática Alemã, antiga Checoslováquia, Polónia e Hungria. Assegurou também a cobertura de conflitos na periferia da ex-URSS, como Abkhásia, Nagorno-Karabakh, Moldávia e Tchechénia, cobriu a entrada dos mujahidin em Cabul, na Afeganistão, a reocupação dos territórios palestinos, a guerra civil na Albânia, o ataque dos EUA contra os Taliban e a última Guerra do Iraque. Além do seu perfil e experiência, saber falar russo ajudou-o a movimentar-se com relativo à-vontade naqueles cenários.
 
A sua cobertura mediática no Iraque teve forte repercussão no Brasil, via RTP Internacional e TV Cultura de S. Paulo. Carlos Fino foi convidado para palestras de universidades em Fortaleza, Natal, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e recebido no Planalto pelo recém-empossado Presidente Lula da Silva. Publicou o best-seller A Guerra em Directo (2004, Verbo), com a edição brasileira A Guerra ao Vivo. Entre 2004 e 2012 foi conselheiro de imprensa da Embaixada de Portugal em Brasília, mantendo nesse âmbito um programa semanal na Brasília Super Rádio FM e a série televisiva Lá e Cá (13 episódios) coproduzida pela TV Cultura e pela RTP2. 

Nas quatro décadas como comunicador venceu, entre outros, o Grande Prémio de Jornalismo do Club Português de Imprensa, o Troféu Gazeta de Mérito do Clube de Jornalistas, um
Reconhecimento da The National Academy of Television Arts & Sciences, dos EUA, a comenda da Ordem do Infante D. Henrique pelo Governo português, a nomeação de Cidadão Honorário de Brasília e o título de Notório Saber em Comunicação pela UnB. No entanto, costuma ser mais lembrado como "o repórter do furo mundial", ao ter sido o primeiro a anunciar a 20 de março de 2003com imagens em direto através de videofone e a partir da varanda do quarto do hotel onde ficou hospedado, o bombardeamento de Bagdade na última Guerra do Golfo. Isso levou a RTP a superar concorrentes poderosas como a CNN, a BBC e a Sky; o jornal Correio Braziliense titulou então na primeira página: "Fino, o português que furou a CNN".


Cursar Direito a pensar em Comunicação
 
A sua intervenção pública já se notava quando estudava Direito em Lisboa e também no movimento antissalazarista, tendo sido perseguido pela PIDE, saído do país para Paris e, depois, prosseguindo os estudos em Bruxelas. Considera-se um homem de causas?
Mais do que um homem de causas, sou sobretudo um homem da minha época – os anos 60 – marcados a leste e a oeste por movimentos da juventude contra o autoritarismo. Foi toda uma década imbuída ainda de um grande lirismo e fé na Humanidade, de uma grande esperança de renovação, de recusa da guerra, de luta contra o perigo nuclear (ban the bomb), de pacifismo (make love, not war) e ainda de progressiva afirmação operária, emancipação feminina e libertação sexual. Tudo isso expresso na onda beatnik, que já vinha dos anos 50, e se prolongou depois no movimento hippie, na música dos Beatles, nos protestos contra a Guerra do Vietname e acabaria por culminar no Festival de Woodstock, já ao som do rock. Ao mesmo tempo, vivíamos, também, sob influência da cultura e da música francesas, cujos autores e intérpretes acompanhávamos de perto. Por outro lado, a URSS exercia ainda – apesar das denúncias dos crimes do estalinismo nos anos 50 – uma certa atração como centro de poder que se contrapunha à hegemonia americana, a qual se nos afigurava marcada em excesso pelos interesses materiais, o consumismo e o domínio do capital. Enfim, parafraseando António Gedeão, não se nasce impunemente numa década assim. Se há causa que verdadeiramente abracei na vida e mantenho até hoje é a causa do jornalismo – profissão frágil por vezes de alto risco, mas essencial ao funcionamento da democracia. As novas tecnologias e a possibilidade, hoje, de todos publicarem tudo a qualquer momento, não elimina o jornalismo: pelo contrário, torna-o mais necessário que nunca, exigindo entretanto o reforço exponencial da formação profissional e a dignificação do estatuto da profissão.
 
O que o levou a começar a carreira profissional numa área de formação diferente (jornalismo) e, em particular, na União Soviética?
Quando terminei o ensino médio, em 1966-67, e tive que escolher o curso superior, deparei-me com um grande problema – não havia na altura, em Portugal, cursos de Comunicação nem de Sociologia, que era o que eu queria fazer. Por pressão dos meus pais e do diretor do Colégio, matriculei-me então em Direito, embora não fosse essa manifestamente a minha vocação. Fui por isso um aluno desinteressado, cumprindo os mínimos e envolvendo-me cada vez mais na luta dos estudantes pela democratização do ensino e do país. Quando, na sequência de um movimento de greves, em 1971, veio uma onda repressiva, não tive outra alternativa que não fosse emigrar. Se não o fizesse, teria sido preso, julgado, condenado a três ou quatro anos de cadeia e em seguida despachado para qualquer uma das frentes da Guerra Colonial. Depois de dois anos em Bruxelas, onde trabalhei e estudei, fui então convidado pelo PC [Partido Comunista] a visitar a União Soviética e a candidatar-me a um lugar de locutor na Rádio Moscovo. Aceitei e trabalhei por isso um ano (entre 1973-74) na secção portuguesa. Logo que ocorreu o 25 de Abril, pedi para sair, mas o PC e os soviéticos retiveram-me contra minha vontade durante meses, o que me impediu de viver a alegria dos grandes momentos de libertação que então se viveram em Portugal e para os quais, ainda que modestamente, também tinha contribuído. Esse período de um ano que vivi na URSS foi decisivo em dois planos – no plano político, afastou-me do comunismo; no plano profissional, confirmou a minha opção pelo jornalismo e pela comunicação de um modo geral.
 
No tempo da Cortina de Ferro e da Perestroika, teve uma vida de repórter que poucos em Portugal tiveram. Que impressões guarda e como era ser ali jornalista?
Foram dois períodos bem distintos. Ainda na época Brejnev, tudo era extremamente difícil e complicado. As comunicações eram muito lentas e vigiadas (tínhamos que pedir ligações telefónicas com antecedência e ficar à espera durante horas!), havia um clima de pressão e intimidação no estilo dos filmes da Guerra Fria: “você sabe que eu sei que você sabe”. Depois, progressivamente, já com Gorbachev, as coisas começaram a mudar e havia um clima de descompressão e de cada vez maior acesso à informação. Foi uma época extraordinária –havia matéria para crónica todos os dias; um período em que literalmente assistíamos à História a desenrolar-se perante os nossos olhos. Como dizem os americanos, era um big cake informativo, um free for all, bastando sair à rua para assistir a alguma coisa de importante a acontecer, pronta para ser narrada e transmitida. Foi então que consolidei definitivamente o que julgo ser a minha vocação nata – repórter.
 
O que o levou a ser correspondente em tantos teatros de guerra, com uma possibilidade muito maior de morrer face à do soldado? A fama, o dinheiro, a causa?
Antes de mais, um desejo profundo de me consolidar profissionalmente – era uma oportunidade de vida que não podia obviamente perder. Depois, o assumir dos riscos inerentes e um sentido kantiano do dever. Sendo correspondente acreditado em Moscovo, não podia deixar de me deslocar aos cenários de guerra que começaram a irromper depois do fim da URSS. Não porque eu quisesse  – sou alentejano, gosto de calma e tranquilidade –, mas porque a realidade em que me encontrava assim o impunha. Nunca tinha tido o desejo romântico de me transformar num repórter de guerra. Mas o ser humano, como se sabe, é ele e as suas circunstâncias e estas impunham que aceitasse a situação em que me vi colocado como um destino. Era um imperativo categórico.
 
Ainda hoje acorda em sobressalto com barulhos repentinos, como sucedeu no Hotel Palestina onde estava no Iraque?
Já lá vão 16 anos e o tempo vai esbatendo algumas coisas. Mas outras permanecem – recordo com frequência algumas situações mais agudas que vivi, seja no Iraque, seja noutros cenários de guerra; situações que pretendo um dia exorcisar pela escrita, se ainda tiver tempo...
 
Marcou-o mais ter sido espancado em 1982 por membros da polícia secreta soviética KGB, ficando internado 17 dias na Finlândia, ou ter sido o primeiro a noticiar o início dos bombardeamentos em Bagdade, em 2003?
Essa primeira experiência violenta é indelével – corri o risco de ficar incapacitado para o resto da vida: as dores eram tão violentas que os médicos finlandeses tiveram que me ministrar morfina durante dias seguidos. Esse episódio pôs termo ao meu primeiro período de seis anos como correspondente na URSS. Quanto à segunda experiência, sinceramente na altura não lhe atribuí grande importância – o nosso grande mérito, meu e do repórter de imagem Nuno Patrício, se o houve, foi não estarmos a dormir e termos mantido a possibilidade de comunicação aberta para entrarmos no ar a qualquer momento, como efetivamente aconteceu, antecipando-nos a todas as outras estações.
 
Essa notícia atraiu o interesse do Brasil e os diversos convites levaram-no a fixar-se em Brasília, nomeadamente como assessor da Embaixada de Portugal. Estava à espera desse feedback?
Não, nunca! O Brasil nunca esteve no meu horizonte – foi um desenvolvimento totalmente inesperado, que só revela o poder da comunicação e a força de se partilhar a mesma língua. E mostra o muito que se poderia fazer para aproximar mais Portugal e Brasil, se houvesse estratégia de longo prazo e uma execução persistente.
 


Ausência do Brasil n'Os Lusíadas faz-nos esquecer a saga portuguesa na América
 
Foi precisamente a relação Portugal/Brasil que o motivou a fazer doutoramento. A que se deveu a escolha do tema e esta necessidade de estudar?
Inesperadamente, via cobertura da Guerra do Iraque, vi-me transportado nas asas da língua para o Brasil. Aí, constatei duas coisas – a força da nossa relação por via da história, do sangue e da língua, por um lado; e, por outro, a permanência de um sentimento de estranhamento e incomunicação. Confrontado com estas duas realidades contraditórias, quis aprofundar as razões dessa situação – ir ao âmago do problema. Foi assim que cheguei à formulação do meu objeto de estudo: “A (in)comunicação Portugal-Brasil: raízes do estranhamento”.
 
Porque decidiu optar pela UMinho? E porquê em Ciências da Comunicação, apesar de juntar na tese temas desde História a Relações Internacionais?
A UMinho surgiu por duas ordens de razões – primeiro, por ser uma universidade já com muito trabalho e prestígio consagrados na área da comunicação. Depois, porque a UMinho tinha uma parceria com a UnB, a universidade federal de Brasília, cidade onde resido, o que me possibilitava fazer o estudo à distância, frequentando algumas matérias que me faltavam para (con)validar créditos e simultaneamente ser acompanhado por um orientador local, em regime de cotutela. Quanto à escolha da área da Comunicação, considero que é neste campo que se joga o essencial do relacionamento entre Portugal e Brasil, sobretudo se ainda quisermos um dia ver ultrapassado o antilusitanismo que tem marcado o olhar brasileiro sobre o nosso país.
 
Como foi o processo de investigação, desde 2013? Solitário e intenso?
Sim, uma tese – apesar do indispensável acompanhamento dos orientadores, que é fulcral – é também um exercício de confronto consigo mesmo, que obriga a mobilizar todas as forças anímicas, exigindo grande disciplina. A sensação por vezes é de nos encontrarmos perdidos no meio de uma densa floresta, à procura de uma senda que nos conduza ao objetivo pretendido; de repente encontra-se uma vereda, uma pista, que depois se perde até que se volta a encontrar, o que requer, além de disciplina, enorme persistência... Nessas alturas, o apoio dos orientadores é decisivo. Em contrapartida, o fascínio do conhecimento é total, sempre se abrindo mais e mais: quando mais se conhece, mais se tem a noção de como é infinito aquilo que não sabemos... E a alegria de encontrar algo de novo – que por vezes surge sem que saibamos bem como nem de onde – é talvez das maiores recompensas do espírito humano.
 
Quais são as principais conclusões que retira do seu projeto de investigação?
Talvez duas, que se interpenetram. Primeira: o facto de a nacionalidade brasileira ter no seu DNA – como detetamos ao longo da investigação – um sentimento antiportuguês que sempre tem sido cultivado desde a independência até hoje, sobretudo através do sistema de ensino, de onde saem gerações sucessivas de brasileiros com uma péssima imagem de Portugal (apesar de um corrente lusófila igualmente presente na sociedade). Segunda conclusão: a necessidade de Portugal ter isso presente na relação com o Brasil, sobretudo em termos de políticas de comunicação, se quiser que esse sentimento antilusitano seja atenuado ou mesmo ultrapassado. Até hoje, essas políticas têm sido muito deficitárias. Há um verdadeiro apagão mediático português no Brasil. Para se mudar essa situação impõe-se a elaboração de uma estratégia de aproximação de longo prazo e de longo fôlego, que vá além das efemérides e dos falsos ditirambos económicos oficiais. E aí, no meu entender, a Academia poderia ter um papel crucial no sentido de congregar esforços de todos os setores envolvidos: governantes, homens de negócios, jornalistas, diplomatas... sem esquecer, claro, a forte comunidade portugusa. Em qualquer caso, é urgente mais comunicação entre Portugal e o Brasil.
 
Considerou que Luís de Camões está de alguma forma relacionado com o distanciamento entre os dois países, pelo facto de a epopeia portuguesa na América não estar n'"Os Lusíadas"...
Camões morreu em 1580, quando ainda toda a saga da conquista, desbravamento, assimilação e expansão do território estava apenas no começo. Compreende-se por isso que ele cante os feitos de Portugal noutros continentes, limitando-se a assinalar que “na quarta parte nova os campos ara e se mais mundo houvera lá chegara...”. O facto de a grande aventura lusitana na América não estar por isso naquela obra fundamental explica, no meu entender, que essa parte da nossa História não se tenha fixado com a mesma força na memória e no imaginário nacionais. Na realidade, por força do curso do tempo e da morte, falta um canto no principal livro do grande vate. Um dia cheguei a imaginar uma série televisiva sobre Portugal-Brasil com uma encenação assim: um jovem português atual chegava no túmulo de Camões e dizia: “Luís, levanta-te, vem acabar de escrever ‘Os Lusíadas’!”.
 
Na sua tese admite que entre os dois países há uma espécie de "mal-estar que não se tem conseguido reverter". Como encara essa relação hoje e perspetiva a sua evolução?
A política dos pequenos passos tem a suas virtudes – as relações económicas e comerciais avançam aqui e ali, há fluxos humanos que se cruzam sobre o Atlântico, sempre vai havendo um ou outro escritor que se publica de um e outro lado... O que tudo isso não faz, entretanto, é ultrapassar o sentimento antilusitano profundo que existe disseminado no Brasil, já que a nacionalidade brasileira historicamente se constituiu com ele. Para isso, precisamos de encarar essa realidade de frente e apostar numa estratégia continuada e abrangente em que o aprofundamento da comunicação deveria estar no centro.
 
Que impressões guarda sobre a UMinho? Como olha para esta instituição e o que tem de diferente?
O que sobretudo aprecio na UMinho, daquilo que conheço, é o espírito jovem e a particular atenção conferida às questões da informação e da comunicação.
 
Estudou e lecionou em universidades de vários países. Que semelhanças e diferenças encontra face a Portugal?
Na Bélgica, impressionou-me a atenção dada às questões práticas do Direito, em pequenas turmas de 15 a 20 pessoas, no máximo, por contraposição e compensando aulas de anfiteatro com centenas de estudantes. No Brasil, a atenção permanente conferida às questões contemporâneas, quer sociais como de costumes, que agora parecem em perigo face à ofensiva política conservadora, que chega ao ponto de se permitir que se instale um clima de desconfiança e até de denúncia política dos professores, o que é altamente limitativo da liberdade de ensino.
 
Que mensagem gostaria de deixar aos estudantes prestes a ingressar no mercado profissional?
Sigam, se puderem, a vossa vocação; sejam generosos nas expectativas e no empenho, mas não se iludam – as realidades são muito duras para quem começa. Por outro lado, há um mundo novo a despontar e abrem-se possibilidades antes inimagináveis para quem tiver a coragem de ousar e persistir.
 

 
Entre cultivar frutos em Brasília e estar em paz em Fronteira
 
A mudança na Rússia e no Médio Oriente ficou aquém do esperado? Como vê a evolução dos blocos das principais potências políticas mundiais?
Parece que as velhas realidades geoestratégicas estão aí, mais sólidas do que se imaginava. A democracia é o grande valor que resta das utopias mortas do passado, mas mesmo ela tem exigências novas que vão para além das formalidades. Há grandes transformações em curso em todas as áreas, o que cria um ambiente de instabilidade criativa e ansiedade, ao mesmo tempo que continuam por solucionar problemas básicos – alimentação, saúde, ambiente, segurança... Tudo isso ocorre a par do reavivar de velhos monstros e fantasmas que podem conduzir a novos confrontos catastróficos. O futuro da Humanidade não parece assegurado.
 
Como avalia, do outro lado do Atlântico, a situação sociopolítica em Portugal?
Sigo só em linhas muito gerais, longe das questões concretas. De um modo geral, pareceu-me salutar ter-se rompido o velho arco da governação (ora agora governo eu, ora agora governas tu, ora agora governas tu mais eu...), abrindo a área do poder a outras forças que dele se encontravam até agora afastadas. Dessa forma, a democracia renova-se, o que pode contribuir para nos mantermos afastados das pseudo-soluções populistas radicais que têm irrompido noutros horizontes, criando tensões desnecessárias.
 
Após mais de 40 anos intensos como jornalista e quase uma década como assessor da embaixada, como lidou com a aposentação?
Confinei-me, por motu proprio (talvez docemente constrangido) a uma doce aurea mediocritas, transformando o exílio autoimposto num tempo mais amplo para cultivar o espírito (a leitura sistemática que a tese impôs e agora prossigo) e também uma atividade que só tinha tido um pouco na infância, em casa dos meus avós, no Alentejo – o lidar com árvores, animais e plantas de uma forma geral: cultivo (com esforço, porque os trópicos são generosos mas têm muita praga) alguns frutos e algumas rosas no meu jardim, reaprendendo a respeitar os ritmos próprios da natureza, os tempos certos de semear, cuidar e colher, os silêncios promissores da maturação.
 
Quais são os principais projetos que tem em mãos? Viver entre Portugal e Brasil? Voltar aos estudos?
No horizonte está viver em Portugal logo que a minha mulher brasileira se possa aposentar. O mais provável será viver cá e lá. Ainda em fase só de imaginar, gostaria de escrever um livro sobre a terra que marcou a minha origem (Fronteira, no Alto Alentejo) e alguns apontamentos de memórias, não sei ainda se tudo junto ou em edições separadas. Antes disso, claro, gostaria de publicar a tese, de preferência no âmbito dos 200 anos da independência do Brasil, mas ainda estou à procura de editora.
 
Correu inúmeros países, viveu no limite, acumula prémios... O que ainda falta acontecer na sua vida?
Tenho pena – por falta de interesse dos media portugueses – de não ter sido correspondente no Brasil. Talvez a tese tenha sido uma forma de compensar essa falta. Quanto ao futuro, espero poder ter um final de vida em paz no meu Alentejo, matando saudades. Mas todos sabemos que “o Homem põe e Deus dispõe” ou, como disse o filósofo francês Edgar Morin, “o mais provável é aquilo que ninguém previu”…