É presidente numa agência de comunicação presente em três continentes

03-07-2019 | Catarina Dias

A alumna de Comunicação Social criou em 1999 a agência Atrevia - Portugal

Foi recentemente considerada uma das pessoas mais inspiradoras do país

Ingressou na UMinho em 1992. Nesta foto está acompanhada de colegas de curso (primeira, à direita)

Com o pai na cerimónia de imposição de insígnias, em 1997

Com as amigas (primeira, a partir da esquerda)

No cortejo académico do último ano de licenciatura (segunda, a partir da direita)

Com colegas de Gestão de Empresas (segunda à esquerda, de t-shirt branca)

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Licenciada pelo Instituto de Ciências Sociais, Ana Margarida Ximenes fundou há 20 anos a delegação portuguesa da Inforpress - Agência de Comunicação e Posicionamento Estratégico, hoje chamada Atrevia.




Recorda-se do seu primeiro dia na UMinho?
Recordo-me bem do meu primeiro dia na cidade de Braga e na UMinho, no campus de Gualtar. A minha irmã foi comigo para tratar de tudo. Durante a viagem de autocarro do Porto para Braga, conheci uma das alunas do meu curso, mas do ano anterior, a Teresa Coutinho (Té), que é hoje assessora de imprensa do Parlamento Europeu, em Lisboa. Ainda nos encontramos muitas vezes.  
 
O curso de Comunicação Social foi a sua primeira opção?
A UMinho foi a minha segunda opção. Concorri primeiro à Universidade Nova de Lisboa, porque a minha irmã estava na Faculdade de Letras. Na altura, existiam poucas universidades com este curso e a UMinho surgiu imediatamente a seguir. Não conhecia ninguém em Braga.

Fez parte das primeiras turmas dessa licenciatura. Que recordações guarda dessa época?
Memórias verdadeiramente maravilhosas: dos colegas de curso aos professores e às amigas com quem partilhei casa. Todos permanecem até ao dia de hoje. Tenho saudades da cidade, dos meus senhorios, sempre tão atenciosos, do traje académico, tão típico, dos dias de estudo na biblioteca, das noitadas em casa. E, claro, das festas académicas, algumas delas ainda no Palácio Dona Chica, em Palmeira, no Club 84 e no Sardinha Biba.
 
Chegou a ser jornalista depois do curso?
Sim, trabalhei em rádio, televisão e imprensa escrita. Quando abracei o mundo da assessoria senti-me muito realizada. Também fui copywriter numa agência de publicidade, o que me deixou excelentes recordações. Graças à aprovação do reitor da UMinho, consegui frequentar durante o curso duas especializações: Jornalismo e Produção Audiovisual. Duas paixões. Têm sido uma mais-valia importante para um melhor entendimento desta grande área que é a comunicação.
 
Em 1999 fundou em Portugal a delegação da Inforpress - Agência de Comunicação e Posicionamento Estratégico, agora chamada Atrevia. Tinha concluído a licenciatura há pouco tempo. Como surgiu essa oportunidade? 
Fui a uma entrevista com a fundadora da Atrevia, Núria Vilanova, e fiquei fascinada com o projeto. Passados dois meses recebi uma chamada dela a convidar-me para abrir uma agência em Lisboa. Disse imediatamente que sim.
 
Foi um desafio enorme para um início de carreira... Conseguiu dar conta de tudo?
Foi difícil em todos os aspetos. Comecei sozinha quando estava habituada a estar constantemente rodeada de pessoas. Mas também foi um momento único por isso mesmo. A Inforpress Portugal nasceu step-by-step e graças ao apoio da minha família e equipa de trabalho. O primeiro escritório abriu num business centre. No primeiro dia entrei no gabinete e fechei a porta, como todos faziam. Comecei a deixá-la aberta no terceiro dia. Não resisti! [risos] Foi engraçado, porque havia imensa curiosidade em relação à agência e, durante o tempo que ali estivemos, recebemos candidaturas de colaboradores de outras organizações instaladas no mesmo business centre.
 
A consultora já existia na altura em Espanha. Agora tem escritórios em mais de 15 países, como EUA, Brasil, Bélgica e Argentina.
Sem dúvida. É muito gratificante vê-la crescer dessa forma. Nos últimos anos vencemos vários prémios, incluindo “Agência Ibérica do Ano”, “Best Place to Work”, “European Excellence Awards 2018” pela campanha “#AnimalsAreNotThings”, “Silver Stevie Award 2018” pela campanha “Hitchcock, más allá del suspense”, e “Best Iberian Campaign” por uma campanha para a multinacional Deloitte. Sentimo-nos sempre muito felizes quando os nossos projetos são reconhecidos, pois por trás está sempre um trabalho de equipa grandioso e cheio de valor. Com as campanhas de comunicação, conseguimos diariamente melhorar algo na sociedade e ajudar a que o mundo seja mais bem entendido. Isto pode ser alcançado através de uma estratégia de comunicação de crise, de comunicação interna ou de public affairs, bem como de uma campanha de marketing de guerrilha ou de publicidade ou um projeto pro-bono.
 
Que projetos lhe deram mais dores de cabeça?
É impossível trabalhar sem preocupações. E, claro, com o tempo aprendemos alguns “truques de sobrevivência”! [risos]



A reputação é o ativo mais importante de qualquer organização
 
Há empresas e instituições que recorrem aos seus serviços de consultoria e comunicação para ultrapassar situações de crise. É fácil recuperar a reputação de uma entidade conhecida?
A reputação é o ativo mais importante de qualquer organização. Warren Buffett, CEO da Berkshire Hathaway e um dos investidores mais bem-sucedidos do mundo, afirma que são precisos “anos para construir [uma reputação], minutos para destruir”. Estes minutos converteram-se hoje em segundos, devido à informação que circula a um ritmo incrível. Há regras base que contribuem para que a reputação não seja tão abalada, como dizer a verdade, saber pedir desculpa, liderar a comunicação desde o início, reagir com rapidez e não culpar o outro. E também há certezas: ninguém ouve um mentiroso. Se uma organização não falar, alguém o irá fazer; é essencial respeitar os timings no envio de informação para os diferentes stakeholders. É, por isso, que em situações de crise é crucial liderar a comunicação desde o início.
 
É cofundadora do Observatório da Comunicação Interna e Identidade Corporativa, além de membro da Associação Europeia de Diretores de Comunicação. De 2009 a 2015 assumiu ainda a vice-presidência da Organização Internacional de Relações Públicas, a maior rede de agências de comunicação independentes do mundo. Consegue arranjar tempo para o lado pessoal e lúdico?
É difícil, mas não impossível. Ambos os projetos necessitaram e continuam a precisar de muita energia. Há momentos em que tudo acontece ao mesmo tempo. É principalmente graças aos meus familiares e à equipa Atrevia que consigo abraçar este tipo de desafios. Mas a minha família é, sem dúvida, o meu pilar para reunir forças e conseguir dar resposta a tudo. Se eles estiverem bem, eu também estou e consigo ir até ao fim do mundo.
 


Eleita uma das pessoas mais motivadoras do país
 
Em 2019 foi considerada uma das pessoas mais motivadoras do país. Qual é o segredo?
Rodear-se de pessoas micropoderosas, a nível pessoal e profissional, que nos ajudam a realizar o impensável nos dois mundos. Destaco ainda duas filosofias de vida transmitidas pela minha mãe, que me acompanham há vários anos: “Ninguém tem culpa dos nossos problemas” e “Ninguém gosta de pessoas antipáticas/problemáticas”. Tudo se torna mais simples com um simples sorriso nos lábios.
 
Considera que está no topo da sua carreira?
Já vivi anos muito felizes. Espero que os próximos continuem a ser igualmente felizes e desafiantes. 

Onde se vê daqui a dez anos?
Na área da comunicação, com toda a certeza.
 
Ainda mantém ligação à UMinho e aos colegas de curso?
É com imensa pena que não tenho conseguido regressar a Braga e à minha Universidade com a frequência desejada. Alexandra Corunha, Fátima Faria e Elsa Costa e Silva, hoje professora do Instituto de Ciências Sociais, são as colegas de curso mais próximas. Na verdade, falamos menos vezes do que as que eu gostaria, mas estão e estarão comigo para sempre.
 
Que mensagem deixa aos finalistas que estão prestes a ingressar no mercado de trabalho?
Sejam corajosos, empreendedores, inquietos, comprometidos, imperfeitos, diferentes e, acima de tudo, honestos. Nunca desistam dos vossos sonhos perante as adversidades!



  Os gostos de Ana Margarida Ximenes

  Um livro. “Eva Luna”, de Isabel Allende. “Chamo-me Eva, que quer dizer vida. Nasci no quarto dos fundos de uma casa
  sombria e cresci entre móveis antigos, livros em latim e múmias humanas, embora isso não me tenha tornado melancólica,
  pois vim ao mundo tendo na memória um hálito de selva”.

  Um filme. “La vita è bella”, de Roberto Benigni.
  Uma música. É difícil, porque tenho várias preferidas… Para hoje escolho “Amused to death”, de Roger Waters.
  Um clube. Real Sport Club, o clube de futebol do meu filho [risos].
  Um desporto. Running outside e em qualquer sítio do mundo.
  Um passatempo. Cinema, ler e dançar.
  Uma viagem. Duas, por serem maravilhosas e muito diferentes: Califórnia e Egipto.
  Um prato. Os tradicionais... com sabor a mãe.
  Um vício. iPhone.
  Uma personalidade. Mahatma Gandhi.
  Um momento. Dois: o meu casamento e o nascimento do meu filho.
  Um sonho. Conseguir que os que me rodeiam, e que são a minha luz, estejam bem.
  Uma curiosidade. Continuar a descobrir o mundo.
  Uma frase. Não há impossíveis! 
  A UMinho. A minha Universidade de sempre e para sempre!